Sapos d’armas e outros píxeis


A última vez que me considerei uma pessoa que joga jogos, ainda eles eram sonorizados à base de blips e blups e cabiam numa dezena (os mais sofisticados) de disquetes.

Desta vez, para desenjoar um bocado das Trumpices, apontamos o olho da memória para o passado, tempos mais simples cujo problema maior eram os New Kids on the Block e não o colapso iminente da civilização ocidental. Ficam aqui as minhas memórias de retrojogos, filtradas por muitos anos de consumo de drogas recreativas e noites mal dormidas:

Premier Manager (PC)

O único jogo de management de futebol que um gajo como eu, que não liga nada a futebol, se dedicou a jogar, mais por influência dum primo meu do que outra coisa. Escolhia-se uma equipa da Conference League Inglesa. Usava um cheat que, se bem me lembro, envolvia endividar o clube de tal forma que se ficava com dinheiro infinito (uma forma primitiva do too big to fail, portanto). Muitas horas a fio a fazer save e load vezes sem fim, para que os jogos da nossa equipa (por norma o Halifax Town) resultassem SEMPRE numa vitória. Valha-me santo deus.

Leisure Suit Larry (PC)

Joguei isto pela primeira vez em casa dum amigo, que me dizia: “és capaz de gostar deste jogo, é de perguntas e respostas…” Eu: “Não é nada! Isto é o LARRY! É um jogo de PINANÇO!” As perguntas eram o controlo parental da altura, nada que um bocado de tentativa e erro não superasse. Meia hora depois já estávamos a ser brindados com gloriosas cenas de sexo softcore censuradas com um bloco de pixéis preto que deixava tudo à imaginação. Recordo também que era estupidamente fácil morrer (os jogos desta altura não te levavam pela mão): atravessar a rua, logo no primeiro ecrã, resultava em atropelamento fatal.

Beneath a Steel Sky (PC)

O BaSS era um jogo do caraças e eu adorava-o, de tal forma que, quando foi preciso arranjar pseudónimo para um dos Secretários de Estado do Ministério do Sexy, a minha sugestão foi um trocadilho foleiro com o nome do jogo. Mas nada como deixar o Diogo da altura explicar, tal como estava escrito num caderno pautado:

“Bom, o SKY é o meu jogo preferido no campo das aventuras gráficas, as minhas preferidas. Creio que no jogo desempenhamos o papel de um presidiário fugido, dado que somos perseguidos pela polícia. O jogo passa-se no futuro, o que aumenta a espectacularidade […] É portanto um jogo de ‘point & click’. É um jogo porreirinho.”

Eu sei: era um cromo. Ainda sou, obviamente, estou só a dizer que não é coisa de agora.

Alex Kidd (Master System)

Salvo erro, vinha incluído com a consola e era um jogo de plataformas que fiz render bastante. Jogava-se um puto cujo poder, se bem me lembro (e penso que já foi estabelecido que me lembro mal), era dar socos com uma mão que se agigantava.

Esbarrava sempre nos bosses finais (que tinham uma mão gigante no lugar da cabeça, o jogo tinha uma obsessão com membros posteriores), que tínhamos de combater com… o jogo do papel, pedra ou tesoura. Não sei se era realmente aleatório ou tinha uma lógica que nunca cheguei a perceber, mas era chatinho.

Gorilla Bas (PC)

Um jogo de projécteis que opunha dois gorilas no topo de prédios a atirar bananas um ao outro. Para mim, este era um jogo envolvido em mistério: porque vinha instalado por defeito no DOS? Porque é que as bananas explodiam quando atingiam o alvo? Porquê “Gorilla Bas“. Eu sei, não era nome do jogo, mas a extensão do ficheiro executável —  “.bas”.

Battletoads (SNES)

Sapos musculados de machado, uma cena ao mesmo tempo muito metal e muito croma. Afinal, eram os anos 90, a década em que animais antropomorfizados a dar cacete eram o expoente máximo de fixeza. Perdia sempre num nível de motas flutuantes, daqueles intermédios que as empresas metiam para encher chouriço porque podiam repetir assets, essencialmente impossíveis de passar sem que se decorasse uma série de gestos automáticos. Acho que o objectivo era salvar uma princesa ou coisa assim.

Mad TV (PC)

Jogo semi-obscuro de gestão de um canal de televisão (vocês lembram-se, eram uma espécie de canais de Youtube pré-digitais). Tínhamos que escolher a grelha de programação, produzir programas, negociar contratos publicitários, tudo enquanto tentávamos conquistar o coração de uma donzela (comprando-lhe prendas como rinoplastias, porque os 90s eram tempos mais simples).

Se fizéssemos asneira suficiente, o patrão atirava-nos da janela do prédio. Deve ter sido isso que me despertou para o flagelo da precariedade laboral.

Categorias