Um RPG para satisfazer todas as suas necessidades supremacistas


Qual seria a melhor forma de matar o tempo num acampamento da Juventude Hitleriana? A resposta poderá ser algo semelhante a Myfarog, um role-playing game pen&paper de fantasia, publicado em Abril deste ano.

As credenciais supremacistas do autor não podiam ser mais distintas. Varg Vikernes, além de ser uma figura proeminente na cena black metal norueguesa, foi libertado da prisão em 2009 após servir pena pelo homicídio de um colega de banda e pela associação a um caso de fogo posto em que foram destruidas várias igrejas cristãs centenárias, no seu país natal. Some-se a isso o rol infindável de afirmações inflamatórias (incluindo uma apologia do Anders Breivik) que tem divulgado no seu site e canal de Youtube, e temos um retrato bastante completo de um fascista moderno.

Myfarog (acrónimo para “Mythic Fantasy Roleplaying Game”) foi, segundo o autor, criado como uma forma de preparar o filho para o inevitável colapso da sociedade, afirmação que é por si só perturbadora a vários níveis. A acção passa-se na terra mítica de Thule (decalcada de uma região da Noruega real) e tem o objectivo declarado de ser uma evocação da “autêntica” mitologia Europeia pré-histórica, antes da perniciosa cristianização. Coincidência ou não, a Sociedade de Thule era uma organização afecta ao partido Nazi alemão com o propósito de preservar a cultura “autêntica” ariana.

O setting de Thule, previsivelmente, é uma variação fantástica sobre a perspectiva de Vikernes do mundo. Thule é povoado por raças nobres (disponíveis em diversos graus de loiro), “verdadeiros nobres, não como os que são representados pelos proletários na cultura popular moderna”. Mas Thule está a ser invadido por raças inferiores de sub-humanos que ameaçam esta harmonia natural, como os Skrælingar (os “Fracos”) e os Myrklingar (os “Sombrios”). Subtilmente, os primeiros recebem um bónus em lançamentos relacionados com decepção e os segundos no lançamento de lanças. Quer adivinhar a que povos estes correspondem na vida real? Se acertou, parabéns: você é possivelmente racista.

Custa admitir, mas é difícil negá-lo: mesmo as mais inocentes versões deste tipo de fantasia histórica, desde Tolkien, reflectem uma visão do mundo com o quê de reaccionária. Raças puras e raças corruptas. Povos indefesos mas predispostos ao sacrifício. Linhagens de nobres que gozam de especial favor divino. Myfarog não está tão longe d’”O Senhor dos Anéis” quanto gostaríamos de pensar.

Felizmente, parece que o Mundo não está exactamente pronto para receber a influência revolucionária de Myfarog, convertendo hordas de adolescentes à sua filosofia de pureza racial. Ao que parece, o sistema é complexo ao ponto de ser praticamente impossível de jogar — e ao que parece esse continua a ser um ponto considerado importante pelos jogadores de RPGs. Vikernes parece ser especialmente adepto de tabelas (estranha afectação para um terrorista de extrema-direita, eu sei), que usa em abundância no jogo. Um exemplo: uma tabela com modificadores para nadar tem 24(!) entradas, que distinguem entre “nadar com brisa suave” e “nadar com brisa ligeira”. O ênfase que é dado ao aspecto sobrevivencialista (o autor explica a relação no vídeo abaixo) do gameplay, de um realismo obessivo-compulsivo-picuinhas, não ajuda a tornar Myfarog redimível pela, bem, diversão. Mas surpreende que um literal nazi seja também um rules nazi?

Finalmente, há a evidente ironia de se preparar para um colapso civilizacional através de RPGs pen&paper. Se a estratégia funcionar, não há invasão orc que me apanhe desprevenido.

E para uma mudança de tom, vejamos o que o “Doutor Amor” Vikernes tem a dizer sobre a delicada arte da sedução:

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