Cenas, tipo, estranhas, man


Imagine, caro leitor, uma vasta conspiração global de contornos satânicos: uma elite secreta de famílias com ligações ao complexo militar/industrial norte-americano engendrou a cena musical de Laurel Canyon, na segunda metade da década de 1960, berço de grande parte do movimento hippie e que estará para sempre associada à contracultura da época. O objectivo: descreditar os movimentos anti-guerra emergentes e mobilizar a juventude em torno de um estilo de vida auto-destrutivo.

Quem me conhece, sabe o quanto aprecio uma boa teoria da conspiração. Alie-se a isso o meu interesse pela cena rock dos anos 60-70, e torna-se fácil compreender como “Weird Scenes Inside the Canyon: Laurel Canyon, Covert Ops & the Dark Heart of the Hippie Dream” (Headpress, 2014) se tornou alvo obrigatório da minha cobiça literária.

Weird Scenes Inside the CanyonDavid McGowan, o autor, aponta o dedo acusatório a vários baluartes da cena: os Byrds (que eram uma banda “manufacturada” com ligações familiares ao exército, logo eram agentes da CIA); o Frank Zappa (que vivia numa casa grande, cujo pai era militar e era um tipo chunga, logo agente da CIA); os Doors (Morrison, cujo pai era militar, não tocava nenhum instrumento, logo CIA); David Crosby (foi à tropa e era um tipo chunga, CIA); Charles Manson (que tinha uma seita e mandou matar umas quantas pessoas, obviamente CIA), etc… Já devem estar a perceber o esquema. Ninguém é inocente em Laurel Canyon. E ninguém morre de causas naturais, aparentemente.

Estou a simplificar, obviamente; não é sequer a minha intenção desmontar os argumentos do livro.

(A propósito, para terem uma ideia de como podem co-existir duas perspectivas completamente opostas sobre a mesma matéria, existe um livro chamado “Season of the Witch: How the Occult Saved Rock and Roll”. Mas, e daí, talvez o seu autor seja um agente da CIA.)

Previsivelmente, o autor aventura-se em território Tila Tequilês (a meio caminho entre a Lalalândia e a Terra do Nunca). A suas inferências, ironicamente, não andam longe das que fazia Charlie “Parece-me Perfeitamente Razoável” Manson, ao ouvir na música dos Beatles um apelo a uma guerra racial sangrenta. A imagem de Frank Zappa a puxar os cordelinhos de uma seita ocultista, a partir do seu castelo suburbano, à la agente da SPECTRE, é especialmente risível. E um salto de fé bastante considerável, mesmo tendo em conta que Zappa era, como observa McGowan, um tipo bastante autocrático e muito pouco simpático, coisa que se constata facilmente ouvindo-o falar da “mentalidade de sindicato”.

Isto não quer dizer que “Weird Scenes…” não levante questões válidas. Por exemplo, que o movimento hippie não foi o acontecimento magicamente espontâneo que os baby boomers recordam. E que foram as suas próprias contradições internas que acabaram por ditar a sua implosão. Contradições essas que, ao contrário da percepção comum, estavam presentes desde o início: a luta pela igualdade de direitos convivia alegremente com o chauvinismo e o racismo; toda a retórica do “paz e amor” co-habitava com os temperamentos violentos de artistas em ego trips napoleónicas; a “expansão mental” das drogas psicadélicas conduzia ao escapismo e ao abuso descontrolado de substâncias; a revolta contra as figuras de autoridade fazia-se em nome de “gurus” e “messias” tão ou mais controladores que a sua contraparte.

Nisto, o livro tem razão: Laurel Canyon tem um lado negro. E, sejamos sinceros, quão genuinamente subversiva pode uma indústria multimilionária ser?

Talvez o movimento hippie tenha, realmente, servido os interesses do status quo, efectivamente descreditando movimentos contestatários legítimos e providenciando um bode espiatório conveniente para a opinião pública. Mas daí a ser fruto de um esforço deliberado (e estupendamente concertado) de uma elite todo-poderosa, parece-me ser dar demasiado crédito ao engenho humano.

Quem já se embrenhou nos meandros das teorias de conspiração conhece o thrill de descobrir (ou criar) ligações improváveis entre dados aparentemente desconexos. Para mim, é uma espécie de pareidolia induzida, como quando vemos nuvens com a forma de animais ou quando ouvimos cânticos satânicos numa música dos Led Zeppelin tocada ao contrário. Aquilo que vemos é uma projecção daquilo que trazemos para a experiência, como num teste de Rorschach à escala conspiracional. No limite, o exercício pode ensinar-nos algo sobre nós próprios e sobre a forma como nos relacionamos com o mundo ao largo. Como dizia o Robert Anton Wilson (outro entusiasta das conspirações/óbvio agente da CIA), “o mundo é uma conspiração conduzida por um grupo muito unido de pessoas praticamente omnipotentes, e essas pessoas são vocês e os vossos amigos”.

A minha posição oficial sobre este assunto é parecida com a do Alan Moore¹ (um hippie cabeludo, barbudo e ocultista), que já se debruçou sobre isto quando pesquisava para o “Brought to Life”: a de que não são os Illuminati, os Rothschild ou os alienígenas reptilianos os condutores do nosso destino. Se decidimos acreditar nisso, é porque a alternativa é muito mais assustadora: a de que não está ninguém ao leme; que o mundo não obedece a qualquer volição humana, mas a forças cegas e caóticas de incomensurável grandeza.

Fónix, trocava isto pelos reptilianos em qualquer altura. OUVIRAM, MESTRES REPTILIANOS?

McGowan, com a sua complexa cosmologia de conspirações macrocósmicas, criou sentido a partir de uma caótica, absurda — e muitas vezes inexplicavelmente violenta — fatia de vida. Será o seu sentido, mas é um sentido, e como tal incomparavelmente mais confortável do que o vácuo que a alternativa implica.


 

¹ Claro que ele quereria, como agente da CIA, levar-nos a crer nisso.