China Miéville, cromo de Dungeons & Dragons


DISCLAIMER: Este texto é, entre os que escrevi para o Ministério do Sexy, provavelmente o que mais fundo mergulha nos abismos mais obscuros do meu geek interior. As minhas desculpas antecipadas, não se volta a repetir.

Para quem não sabe, o China Miéville é o menino bonito da weird fiction do momento, pelo menos tanto quanto um gajo feio como o China Miéville o pode ser. Para o demonstrar, é detentor de N prémios Nebula, Hugo, Clarke, etc., que (presumivelmente) usa para decorar o altar a Nyarlathotep lá de casa. Foi descrito como sendo “um escritor com um talento descritivo raro, uma invulgar atenção para o detalhe físico, para a sensualidade e beleza daquilo que é humano, assim como o alienígena” pelo Michael Moorcock, figura incontornável da literatura fantástica.

O gémeo perdido do José Luis Peixoto?

O gémeo perdido do José Luis Peixoto? (Ceridwen)

Dos livros dele, o único que li foi o “Perdido Street Station” (Random House, 2003), um de uma série de livros passados no mundo ficcional de Bas-Lag.

Confere: a verve imaginativa está lá, a bizarria também e, admitamo-lo, o universo de Bas-Lag é consistentemente cativante, original e pormenorizado. Pela negativa, o livro exibe todas as marcas de um escritor a tentar demasiado. Por isso, e apesar de toda a inventividade, não foi um livro de leitura agradável.

Ora, além de escritor laureado, o Miéville também é… um jogador de longa data de D&D. E essa relação informa, pelo menos em parte, o seu estilo de escrita: a sua tendência para popular as histórias com criaturas estranhas vividamente descritas vem-lhe das horas passadas a examinar o Monster Manual; a caracterização minuciosa das geografias que servem de pano de fundo às suas aventuras, com direito a mapas e tudo, tem tudo de comum com aquilo que um Dungeon Master faz para preparar uma campanha. E esta relação de amor é reciprocada, aparentemente: a “Dragon Magazine” dedicou um número em boa parte às criações do Miéville.

Mas a inspiração de D&D sobre Bas-Lag vai um bocadinho além disso, parece-me. Vejamos:

“Dark Sun” é um setting de campanha da Wizards of the Coast, frequentemente elogiado pela originalidade face às convenções da fantasia Tolkienesca. O mundo de “Dark Sun”, Athas, é um planeta-deserto moribundo, devastado por um holocausto mágico. É uma coisa muito heavy metal, feios porcos e maus, niilista a dar c’um pau. Numa palavra, é altamente.

É aqui que as coisas se tornam realmente interessantes. Por exemplo, em Athas existe uma espécie de criaturas insectóides inteligentes, os Thri-Kreen, capazes de esculpir ferramentas a partir da sua saliva resinosa; em Bas-Lag existe uma espécie de criaturas insectóides inteligentes, os Khepri, capazes de criar esculturas maravilhosas com as suas secreções fisiológicas. Outro exemplo: outra das espécies icónicas de Athas são os Aarakocra, aves humanóides que habitam o deserto e prezam, acima de tudo, a liberdade. Em Bas-Lag (adivinharam) existe uma espécie de criaturas humanóides aladas, os Garuda, que habitam o deserto e cujo valor principal é a liberdade. E apesar de em Athas não existir uma espécie de cactos humanóides inteligentes, como os Cactacae de Bas-Lag, quase todas as plantas têm alguma forma de inteligência e, tratando-se de um planeta-deserto, os cactos são, naturalmente, uma presença proeminente. Outro pormenor: a existência de uma “Cacotophic Stain”, uma região devastada pelo uso de magia, espelha as circunstâncias que deixaram Athas no seu triste estado. Outro: New Crobuzon, onde se passa a acção de “Perdido…”, é uma cidade-estado com um governo despótico. Em Athas, os principais enclaves civilizacionais são… cidades-estado com governos despóticos.

Mas, afinal, onde é que eu quero chegar com isto? Não sei bem. Não acho que estes paralelos sugiram que o Miéville tenha plagiado intencionalmente seja o que for, nem posso garantir que alguma vez tenha jogado “Dark Sun”. E se realmente se inspirou nele, foi apenas uma de muitas fontes a que foi beber, que vão desde o folclore Russo, Lovecraft, ao “Epic Pooh” do Moorcock.

No fundo, acho, onde eu quero chegar é a isto: o China Miéville é estranho, sim, mas só para quem nunca jogou póquer espacial com um Tarrasque.

Nunca faças bluff com um Tarrasque

“Full House? Eu mostro-vos o Full House!”