Conhecer-te é amar-te


Um coronel da Grande Guerra derrota o Huno graças a uma erecção massiva. Richard Nixon acorda na cama com Michelle Obama. Um pássaro antropomórfico ensina o presidente norte-americano a pilotar drones e a interrogar suspeitos. Eventualmente, os dois anexam o Planeta Terra à Galáxia Andrómeda, como uma forma de contornar a Convenção de Genebra.

BUMF, por Joe Sacco

Tudo isto está contido no primeiro volume de BUMF, o último livro do cartunista Joe Sacco. Os anteriores eram sóbrias BDs jornalísticas sobre a Palestina, Gorazde e a Primeira Guerra Mundial. Para BUMF, Sacco parece ter regressado às suas raízes nos comics alternativos, com um resultado que não podia estar mais longe do registo objectivo dos esforços anteriores.

Em traços largos, o enredo segue as pisadas do presidente Barack Obama. Ou talvez seja mais correcto dizer presidente Richard Nixon, pois logo nas primeiras páginas é-nos mostrado que o segundo possui o corpo do primeiro, numa espécie de reencarnação à força, se a reencarnação funcionasse de forma muito bizarra e um tanto alegórica. Pensando melhor, acho que esta é uma descrição bastante exacta da reencarnação. Adiante: a partir daí assistimos a uma escalada de depravação e violência sórdidas, inflingidas em nome de coisas como a Segurança Nacional pela pessoa descrita como “um suíno dum homem e um otário palrador dum presidente” por um certo jornalista gonzo.

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Um amigo meu notou uma certa semelhança com o inenarrável Jack Chick. Compreende-se: o tom que domina a fábula é apocalíptico, com múltiplas referências bíblicas (particularmente do Livro da Revelação, o mais apocalíptico dos textos apocalípticos). Há também, num tema desta natureza, o risco de resvalar num moralismo primário semelhante ao que Chick apregoa e a que, na opinião deste escriba, Sacco consegue esquivar-se com sucesso.

Mas, se no caso de Chick a inspiração vem de um fundamentalismo religioso quase medieval e um genuíno e nada irónico medo das Chamas Eternas do Inferno, Sacco parece estar mais interessado em proporcionar-nos um vislumbre privilegiado do interior da psique do Líder do Mundo Livre. A paisagem resultante é, forçosamente, qualquer coisa de perturbadora. Talvez não tanto como um tract do Jack Chick, mas perturbadora quanto baste.

Excerto de Dark Dungeons, uma lúcida denúncia do flagelo Dungeons & Dragons (Jack Chick)

Uma lúcida denúncia do flagelo Dungeons & Dragons (Jack Chick)

Está claro, tudo isto seria insuportavelmente pesadão se não tivesse — e isto é algo mais a separá-lo de Jack Chick — um sentido de humor. E BUMF consegue ser hilariante, mesmo no seu mais pueril. Eu já falei da erecção massiva do coronel?

A narração segue uma lógica de sonho (ou de pesadelo, para sermos mais exactos), o que a eleva acima da mera sátira política. Sacco consegue, de forma muito eficaz, transmitir uma valente vibe de má trip, posicionando-se a meio caminho entre Hunter S. Thompson e A. Jodorowsky, com um bocadinho de Hieronymus Bosch e ainda uma pitada de Pasolini à mistura: tudo é hiperbólico, tudo é excessivo, e o resultado entranha-se firmemente (e inquietantemente) sob da pele do leitor.

É curioso, mas a presidência do governo americano parece atrair gente seriamente obcecada com o fim dos tempos: desde a corrida às armas da Guerra Fria, encabeçada por Kennedy (provavelmente o homem que esteve mais perto de carregar no botãozinho vermelho), até ao born again George W. Bush (que acreditava piamente que o Médio Oriente seria o palco do Juízo Final). Honrosa excepção seja feita a Clinton, que ao que parece conseguiu a extraordinária proeza de perder os códigos de lançamento nuclear por uns meses! Mas, talvez fruto do seu saudável (e bem documentado) apetite sexual, Clinton provavelmente estaria menos preocupado com essa coisa de arrasar com a vida no planeta (e mais com arrasar com as cuequinhas de estagiárias).

É quase como se a Casa Branca fosse habitada por um espírito maligno que possuísse os seus ocupantes, independentemente das convicções pessoais que cada um tivesse anteriormente. É o que Sacco parece querer sugerir. Não, a subtileza não é o ponto forte deste livro. É contundente, sim, mas nada subtil. Não digo isto como uma crítica.

E o aparelho de estado, em BUMF, é um demiurgo bastante paranóico. O mais pequeno desvio da norma é o suficiente para fazer soar os alarmes lá na NSA e condenar o suspeito ao mais kafkiano dos processos. “Conhecer-te é amar-te” é uma máxima repetida amiúde no livro. Porque no fundo é isso mesmo. É por uma questão de amor — um Estranhoamor — que Obama-Nixon decide escalar a Árvore do Conhecimento. É por amor aos seus súbditos (eu disse súbditos? — eleitorado, queria dizer eleitorado!) que os quer conhecer intimamente. Se para isso tem que suspender o devido processo legal e instaurar sistemas de vigilância indiscriminada, é simplesmente o preço a pagar. Assim funciona o tough love de um pai-deus-estado.

BUMF

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