Empreendedorismo de auto-ajuda


ou Como Aprendi a Deixar de Me Preocupar e a Amar O Segredo

O empreendedorismo, e suas mitologias associadas, têm muito em comum com a filosofia da auto-ajuda. Ambos canalizam (e, por sua vez, alimentam) uma particular corrente de frustrações e aspirações presentes em cada um de nós. E ambos têm, na essência, elementos do mesmo pensamento mágico que, supõe-se, animava o paleolítico a desenhar nas paredes de cavernas.

Isso ou — ALIENS!

Isso ou — ALIENS!

Vejamos o exemplo d’O Segredo, celebérrimo livro publicado em 2006 que — com o divino empurrão de lady Oprah — vendeu mais de 19 milhões de cópias por todo o mundo e detonou todas as listas de bestsellers e mais alguma. Um dos temas centrais do livro é a Lei da Atracção, segundo a autora uma lei natural que determina a coesão universal e que funciona da seguinte maneira: os nossos pensamentos e emoções (negativas ou positivas) transmitem determinadas frequências que atrairão circunstâncias e eventos da mesma frequência. O conhecimento e controlo deste poder natural, afirmam alguns, é capaz até de curar o cancro (infelizmente, não estou a inventar).

O que a autora d’O Segredo descreve, com a sua Lei da Atracção, é a definição académica de pensamento mágico: a atribuição de correlações causais a fenómenos sem relação. Se eu pensar em chuva, vai chover.

(Chegados a este ponto, somos obrigados a admitir que, pelo menos para a autora, a teoria tem funcionado às mil maravilhas. Como é habitual acontecer neste tipo de esquema).

Spoiler alert: não ficas rico no fim.

Spoiler alert: não ficas rico no fim.

De Revolutionibus Orbium Empreendedorum

O verdadeiro empreendedor (essa criatura mais feérica que material, como um Pégaso que só se consegue ver em condições climatéricas muito específicas e apenas pela visão periférica) é aquele que consegue fazer. Aquele que não reconhece obstáculos, que transporta consigo, sempre, uma atitude insuperavelmente positiva. É, em suma, a encarnação terrena do übermensch Ayn-Randiano, o Alfa e o Omega corporativo, Prometeu e Sísifo combinados (transformados?) num Optimus Prime do Capital!

O cânone empreendedor assenta nessa mesma crença de que, não obstante quaisquer que sejam as circunstâncias externas (questões de berço, género e etnia; condições macro-económicas), é ao indivíduo que cabe a responsabilidade exclusiva pelo seu sucesso financeiro. Evidentemente, esta filosofia não seria possível sem a crença numa força sobrenatural que regule a harmonia universal: A Mão Invisível do Mercado (ver A Lei da Atracção).

A estratégia do empreendedor, por consequência, é a da visualização positiva. Não há problemas — há desafios. Não aceite um não por resposta. Não se vista para o emprego que tem, mas para o emprego que quer ter.

Consideremos a linguagem própria desta espécie. O “empreendedorês” e respectivo jargão devem muito aos alquimistas da Idade Média, que similarmente ofuscavam a linguagem dos seus tractos proto-científicos e espirituais como uma forma de afastar as atenções indesejadas de uma certa instituição religiosa muito dada a promover churrascadas na praça pública.

“Empreende a Dor!”

Bem, estamos no séc. XXI, a Inquisição é coisa do passado e, pelo menos em Portugal, os pecados de colarinho branco passam praticamente impunes. Acho que é seguro deduzir que a única coisa que o empreendedor poderá estar a tentar ocultar é a vacuidade das suas próprias ideias.