Nem exactamente mortos nem inteiramente vivos


Quando soube que o Marco Mendes tinha publicado um novo livro, com o sugestivo título de “Zombie” (Mundo Fantasma, 2014), decidi imediatamente que lhe queria deitar a mão. Do trabalho dele, conhecia sobretudo as tiras curtas que vão aparecendo nas internets, observações na primeira pessoa de episódios da vida, do país e das gentes. É sempre surpreendente a quantidade de humor, acutilância, beleza e melancolia que o Marco consegue encaixar em quatro vinhetas.

A inspiração para o título do livro, li em algum sítio de que não me lembro, deriva de uma música do Fela Kuti gravada em 1976. Era uma denúncia fulminante do governo Nigeriano, e teve consequências verdadeiramente funestas para Kuti e a sua família. Dirigida especialmente aos militares desse país, a letra acusa-os de se comportarem como os mortos-vivos do título, obedecendo cegamente às directivas vindas de cima.

Dança Macabra

(Sobre)viver num país em crise obriga a que se desligue algumas faculdades mentais e emocionais. Mentes demasiado críticas convivem mal com a precariedade laboral e económica; a degradação da saúde e da previdência social testam os limites da empatia. Como diz o pai do Marco da BD: “Agora é tentar manter o que se tem sem levantar ondas! (…) Qualquer um que sobressaia é um alvo a abater!”

Por falar em estados intermédios, a escrita de “Zombie” situa-se entre a auto-biografia confessional e o comentário social. O que funciona a seu favor, porque assim consegue escapar às armadilhas do umbiguismo auto-indulgente e do panfletarismo.

O livro acompanha o Marco, professor na FAUP, e companhia, vidas embargadas pelo espectro da precariedade. Vão passando o tempo na busca mais ou menos indiscriminada de parceiras sexuais, ou em noitadas de copos em dia de aulas.

Zombie, Marco Mendes

No centro disto tudo, há uma “acção subversiva”: encher a cidade de murais com esqueletos que dançam. Como explica um personagem, é um “despertar dos mortos”, celebração de vida sob o signo da austeridade, o gozo possível num país em crise. Concretizado o plano, é na pista de dança do Gruta, ao som do DJ Scotch, que se celebra a vitória (possível). Na manhã seguinte, provavelmente já a Câmara mandou pintar por cima.

Porto ponto e vírgula

A cidade do Porto serve de cenário para a maior parte de “Zombie”, e é nesse aspecto uma cidade especialmente adequada ao tema: há poucas tão votadas como ela a esta estranha forma de meia-vida. Os edifícios praticamente arruinados da baixa, em constante luta com a gravidade, têm os pisos de cima ocupados por pensionistas miseráveis, e o rés-do-chão por restaurantes gourmet; há prédios de apartamentos totalmente por conta do Airbnb. O boom turístico veio indiscutivelmente reanimar o centro da cidade e providenciar um meio de subsistência a muita gente, mas não sem custos: cada vez mais os habitantes locais são convidados a transferirem-se para a periferia. Às vezes a austeridade tem uma face ultra-cosmopolita.

Dura praxis…

Em nenhum outro lado o Marco Mendes vê sinais mais ominosos deste estado das coisas como na praxe académica, a que dedica especial atenção (reforçada por um texto assinado por Samuel Buton). Com certeza, vê nestas tradições de vassalagem e humilhação, algo de simbólico do mesmo sistema que proclamou a inevitabilidade da austeridade. E, de certa forma, a suspensão da faculdade crítica que os “doutores” e “engenheiros” exigem dos seus caloiros é uma espécie de zombificação.

Costumo ouvir como resposta a casos como aquele dos “doutores” que enterraram uma estudante até ao pescoço e a fizeram beber até ao coma: há idiotas em todo o lado. Certo. Mas não é em todo o lado que existe um sistema que, por virtude de senioridade, protege os idiotas e os investe de poder para que possam impor sobre outros a sua idiotia. A verdade incontornável é que a praxe, mesmo nas suas versões mais benignas, tem traços de um autoritarismo que não deveria existir para além dos muros de um quartel de infantaria.

Praxe, Marco Mendes