Um Disco onde viver


O que é que um aspirante a astrónomo profissional, um jornalista, um assessor de imprensa do Central Electricity Generating Board, um escritor veterano e um cavaleiro britânico têm em comum? Bom, neste caso em particular, serem todos a mesma pessoa¹.

Terry Pratchett é o autor responsável pelo fenómeno ímpar que é Discworld — uma série de 40 livros publicados desde 1983 até 2013, com um ainda na fornalha para ser lançado numa data indeterminada. E isto sem contar com outros trabalhos, alguns ligados a Discworld, outros nem por isso.

Nos dias que correm, infelizmente, o autor anda com a saúde em baixo: foi diagnosticado em 2007 com uma forma rara de Alzheimer conhecida como Síndrome de Benson ou Atrofia cortical posterior. Segundo Pratchett, a doença não afectou consideravelmente a sua capacidade cognitiva; por outro lado, as suas capacidades motoras ficaram fortemente debilitadas, levando mesmo a que ele abandonasse o teclado de vez. Porém, abandonar o teclado não o fez abandonar a escrita, que continua com o auxílio de software de reconhecimento de voz e do seu assistente, Rob Wilkins.

A doença levou-o a investigar mais sobre a situação lastimável que é a pesquisa científica na área da doença de Alzheimer o que, por sua vez, levou a uma doação de $1.000.000 da parte do escritor à Alzheimer’s Research UK, um fundo de investigação no Reino Unido dedicado a estudar a doença.

Mas, como o próprio Sir Pratchett pediu quando a doença lhe foi diagnosticada, vamos tentar “manter as coisas alegres” — vamos falar de Discworld!

Imaginem, se fizerem o obséquio, um planeta. Mas não desses planetas habituais que por aí tanto há. Em primeiro lugar, este ganha logo pontos por ter um sol a orbitar à volta dele, ao invés do habitual². Mas isso é longe de ser a sua característica mais relevante: em vez de ser uma esfera, como é costume entre os objectos celestes que têm a lata de se chamar planetas, este é um disco com cerca de 16.000 km de diâmetro a viajar pelo espaço.

Alguns entre vós devem estar neste momento a pensar no ridículo que é o conceito de um planeta em forma de disco a vaguear pelo espaço. Mas não se preocupem, a coisa tem bem mais lógica do que parece à primeira vista: o disco está na verdade balançado nas costas de quatro elefantes gigantescos que, por sua vez, estão por cima da carapaça da Grande A’tuin, a Tartaruga do Mundo. Como vêem, tudo encaixa!

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“Quê, nunca viram?” (via Flickr)

Como podem calcular, este tipo de coisas (entre outras) torna a vida no Disco um pouco mais peculiar do que aquela que nós conhecemos. Talvez por isso é que, como é dito no primeiro livro da série, “no disco, os Deuses não são propriamente venerados e sim culpabilizados.”

Mas escondido por baixo do bizarro (ou talvez seja mais correcto dizer, tornado dolorosamente óbvio através dele) encontramos problemas, histórias e personagens que podiam perfeitamente existir no nosso mundo com poucas alterações. Algures entre a fantasia e o humor a roçar no completamente absurdo, a obra de Pratchett toca em temas como discriminação, religião, os Correios e até mesmo o Desporto-Rei!

Muito para além de uma mera paródia das tropes típicas do género de Fantasia, Discworld é uma visão satírica mordaz da nossa própria existência e do ridícula (e, sim, também do fenomenal) que ela consegue ser.


¹ Bom, a mesma pessoa não foi todas as coisas ao mesmo tempo, claro. Mas o aspirante a astrónomo conseguiu com que astrónomos que passaram dessa fase baptizassem um asteróide em nome dele. Parece que por vezes ser um escritor de renome nos poupa ao trabalho de ter de vasculhar o cosmos para termos um bocadinho dele com o nosso nome. Note-se, porém, que era apenas um aspirante a astrónomo profissional mas que se tornou num astrónomo amador — isso remove parte do impacto daquilo que eu disse sobre não ter o “trabalho de ter de vasculhar o cosmos”. Mas vamos ignorar esse detalhe para o bem da piada.

² Também tem uma lua, mas isso já não impressiona ninguém.

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