Banda sonora para o fim da civilização


Um das cenas mais conhecidas e mais estapafúrdias do This Is Spinal Tap envolve um adereço que a banda pretende usar num espectáculo: uma réplica do Stonehenge em escala reduzida. O problema é que, graças a uma confusão com o sistema imperial de medição, o adereço acaba por ser produzido a uma escala bem menor do que o pretendido, obrigando-os a improvisar e contratar um grupo de anões para interpretar o papel dos druidas que dançam à sua volta.

E como o Universo é um lugar incessantemente mágico, eis que se dá um bizarro twist da realidade. Por obra do acaso (ou maquinação do Demónio, para ser mais fiel ao contexto), acontece precisamente a mesma coisa com os Black Sabbath, mas ao contrário: a réplica que fabricaram era 9 vezes maior do que o previsto! Não se sabe se anões foram chamados a intervir, mas eu gosto de imaginar que sim.

O This Is Spinal Tap teve ressonância precisamente porque muitos dos episódios mais absurdos eram menos uma paródia do que um retrato fiel do que se passava. Como fervoroso admirador de muito do que saiu desta época, tenho que reconhecer que o género progressivo é uma música essencialmente decadente: demasiado intrincada ao ponto de saturação, demasiado balofa, demasiado pretensiosa, demasiado auto-indulgente. Demasiado tudo. É o produto de um movimento que, atingido o zénite do arco que descreve, inicia uma longa e agonizante queda, mas não sem antes lançar de uma só vez todos os foguetes que ainda lhe sobram.

É paradigmático o famoso episódio da bateria em aço inoxidável que os Emerson Lake and Palmer insistiram em usar numa tournée e que levou ao cancelamento de vários espectáculos porque o peso daquele mastodonte (2,5 toneladas!) era mais do que alguns palcos eram capazes de suportar.

A verdade é que, a partir deste momento, os estilos que lhe sucederam viriam a ser progressivamente auto-referenciais. O punk rock, surgido como uma reacção directa aos excessos do rock progressivo (e tudo o que representavam no contexto maior da época), é um sintoma desta autofagia musical e não pode ser apreciado senão sob esta lente. Não deixa de ser irónico, também, que a mais celebrada banda desse momento não tivesse sido, na génese, mais que uma cínica manobra de marketing para vender roupas.

É relevante, pelo menos para mim, que tenha sido mais ou menos por esta altura que o rock foi sendo despido da sexualidade crua que lhe estava no ADN, para a substituir progressivamente por um gozo puramente intelectual (do prog rock) ou pela deliberada inversão das regras (do punk rock).

Mas a história do rock não pode ser separada da história da civilização ocidental, e ambas correm em paralelo. Não é por acaso que a British Invasion coincida com a altura histórica em que o Império Britânico estava em desintegração, e sob intensa crítica interna. O rock’n’roll é um género musical fin-de-siècle.

O que sobra, fora alguns excepcionais pontos de fuga, é um género musical a lutar para adiar a irrelevância. A história do rock pós-anos 70 é a de um prolongado estertor de morte, que só mantém a impressão de vida pela lentidão do processo. O que não invalida, no entanto, que daí tenham surgido experiências sublimes. O que se pretende não é menosprezar, mas simplesmente reconhecer que o rock’n’roll é um produto da sua época. E tanto melhor por isso.

Mas, no geral, o panorama actual é o de uma geração refém da sua auto-consciência, demasiado cool, demasiado irónica… Demasiado pouco. Os seus agentes, na maioria, parecem já não ser capazes de se transfigurarem naqueles endemoniados sacerdotes Dionisíacos de que falava o Iggy Pop e que, para mim, representam o auge da vitalidade no rock.

O certo é que a supernova rock, como um funeral viking, tem sido uma fonte de calor e luz indispensáveis para a vida neste século, que sem elas seria insuportavelmente soturna. Do prog ao punk, passando pelo hard, o soft, o psych, o glam, o heavy metal e afins, o seu colapso tem proporcionado, ao menos, um espectáculo épico de excesso, chamas, padrões tigrados, dragões, lasers e muscle cars.

E explosões (de que, aqui no Ministério, somos todos fãs)!

Mas e daí, também nós somos fruto de uma sociedade em declínio.

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