Canção de Amor Para o Cantor


“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.”

F. Pessoa

“Uma canção foi proibida
Antes de ser canção de alguém
Numa gaveta foi escondida
P’ra não pertencer a ninguém”

M. Paulo

Parece uma escolha óbvia. Por excelência o homem de quem, hoje em dia, se decide gostar ironicamente ou parodiar. Para alguém que tenha passado pelas décadas de 80/90 é e sempre será o nome incontornável do cançonetismo romântico (para alguns) ou pioneiro pimba (para os restantes). Marco Paulo, nascido João Simão da Silva, tem hoje 70 anos. Canta profissionalmente há quase 50.

E “profissional” parece ser o termo definitivo para descrever o percurso deste Tom Jones à portuguesa. Marco Paulo é um profissional consumado, como não podia deixar de ser dada a sua notável carreira. Goste-se ou não dele, é um facto inegável: 140 discos de platina, ouro, prata e diamante colocam-no certamente na história da música popular portuguesa. Seja no palco ou num estúdio de televisão, o homem conduz-se sempre pelo mais rigoroso profissionalismo. É uma operação de charme em pele e osso, caraças. Não diz uma palavra que traia a mínima descortesia; todo e qualquer gesto é feito com precisão quase mecânica, mas delicada. Com a idade, aliás, o seu físico foi-se aproximando dessa aparência de artifício total: com 70 anos, tem cada vez mais o aspecto de um boneco de porcelana ou de um querubim do Barroco. Ou de um ovo de Fabergé.

Vejam este vídeo da actuação dele no Festival RTP de 1967 e digam-me se o Marco Paulo não é a perfeita réplica animada de um boneco Ken:

Estou convencido que este rigor geométrico está relacionado, pelo menos em parte, com um factor na vida privada deste grande senhor. Marco Paulo não é casado nem tem filhos; leva uma vida reservada e tem um círculo de amizades restrito; tem uma relação muito especial com a mãe, que trata com a reverência normalmente reservada à Virgem Maria; para ele, aliás, as mulheres parecem dividir-se entre as santas e as outras. Mentes menos impolutas que a minha poderiam imaginar que Marco Paulo esconde alguma coisa em relação à sua sexualidade.

Not that there's anything wrong with that

No fundo, é o engodo ideal: boa parte do sucesso de um cantor romântico reside na promessa vaga de um encontro carnal — e sua oportuna frustração no último momento.

Atenção, digo-o sem a mínima ironia: tudo isto apenas serve para consolidar a imagem que tenho do Marco Paulo como artista romântico par excellence. Apercebi-me disto enquanto assistia ao Há Tarde (caso não tenham percebido, sou uma dona de casa de 65 anos), apresentado pelo Herman José. O contraste entre a postura dos dois, sobreposto à memória do Serafim Saudade, tornou-o mais que evidente: Marco Paulo é o perfeito sedutor de velhinhas, a imagem do cavalheirismo e delicadeza, combinando em partes iguais um poder de atracção magnético e uma aura de intangibilidade. O profissional arquetipal.

Algures no Olimpo da Música Popular Portuguesa, há um trono à sua espera.

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