Demasiado estranhos para viver, demasiado raros para morrer (pt. 2)


Concluímos, aqui no Ministério (pronto, vá, fui só eu), que o admirável panteão dos freaks do rock’n’roll não cabe em apenas um artigo. Assim sendo, e tendo em vista o serviço público que jurámos prestar, expandimos o recenseamento que iniciámos na esperança de promover o lado bizarro da vida.

 

Nascido e criado nas mean streets de Nova Orleães nas décadas de 40-50, Dr. John foi muitas coisas antes de ser músico, nem todas elas inteiramente recomendáveis. E era um puto precoce em tudo: arranjou o seu primeiro emprego na música aos 16 anos, mais ou menos a mesma altura em que se estreou nas drogas pesadas. Para sustentar os seus hábitos, fez coisas como traficar drogas e gerir um bordel (e trocou a guitarra pelo piano quando perdeu um dedo num tiroteio).

O seu álbum de estreia fundia os sons tradicionais do rhythm and blues com o rock da moda contemporânea; e o bom doutor apresentava-se com extravagantes trajes inspirados noutro dos seus interesses: o vodu do Louisiana.

Mais tarde, foi preterindo o rock a favor do jazz, o r&b e o funk tradicionais, convertendo-se num respeitável pilar da música de Nova Orleães.

 

Alexander “Skip” Spence foi, por um breve período de tempo, baterista dos Jefferson Airplane. O leitor informado já adivinhará o que se segue: proporções heróicas de LSD. Tanto que, durante uma sessão de gravação com a sua banda seguinte (os Moby Grape), por alguma razão decidiu tentar atacar os seus companheiros com um machado. Por causa desse incidente, previsivelmente, foi institucionalizado e altamente medicado. O diagnóstico de esquizofrenia teria ditado o fim da sua carreira musical se, no período em que esteve internado, não tivesse gravado um último álbum extraordinário: “Oar”.

Mas Skip Spence nunca voltaria a ser o mesmo: os restantes anos viram-no sucumbir à doença mental e ao abuso de drogas duras (chegou a acordar de uma overdose na morgue, já com etiqueta no dedo do pé e tudo), tendo passado o resto da sua vida sob o cuidado de terceiros ou mesmo em plena indigência.

Um dos últimos projectos musicais seus a ver a luz do dia foi, curiosamente, uma música (não usada) para a banda sonora dos “Ficheiros Secretos” — apropriado para um ovni como ele. Dias antes da sua morte, teve ainda oportunidade de ouvir o álbum “More Oar, A Tribute to the Skip Spence Album”, gravado em sua homenagem por gente como Robert Plant, Tom Waits, Beck, Mark Lanegan, entre outros.

 

Apesar de se enquadrarem genericamente no rock, os Ween (compostos por Gene e Dean Ween) desafiavam qualquer tentativa de classificação: a música que tocavam cobria praticamente todos os estilos imagináveis, sendo o único fio condutor um afiado sentido de humor absurdo e largamente influenciado pelo consumo de drogas recreativas. Para terem uma ideia, os Ween dedicaram um álbum inteiro à música country: “12 Golden Country Greats” (que, apesar do título, tinha apenas 10 faixas). Sem qualquer ironia.

No rescaldo de um episódio um tanto triste em Vancouver, Aaron Freeman (o nome verdadeiro de Gene Ween) decidiu retirar Gene dos palcos em 2012, como forma de reconhecer e combater a sua adicção ao álcool e outras drogas.

https://www.youtube.com/watch?v=SW7vemumD14

 

Os relatos sobre o modo como Stacia se tornou num membro semi-oficial dos space rockers Hawkwind variam bastante conforme a fonte, mas isso é compreensível dada a quantidade de droga que andava a circular. O certo é que ela começou, de forma mais ou menos espontânea, a acompanhar a banda em palco, pouco tempo depois de se cruzar com eles no festival da Ilha de Wight. Ela própria descrevia o que fazia como uma forma de “dança interpretativa”, com a particularidade de estar completamente nua, coberta apenas com diferentes pinturas corporais. Escusado será dizer, as suas formas voluptuosas atraíram e deliciaram um público maioritariamente juvenil, apesar das suas pretensões artísticas. Independentemente disso, Stacia abriu caminho para uma série de performers e dançarinas que lhe seguiriam as pisadas nos palcos do rock’n’roll.

 

Considerado um dos guitarristas mais virtuosos e criativos dos tempos modernos, a alcunha de Buckethead tem uma origem bastante evidente: este artista tem a particularidade de nunca ser visto sem um balde da KFC sobre a cabeça e uma máscara branca a cobrir-lhe o rosto. Além disso, é comum ser visto a brandir um par de matracas ninja e a dançar à robô nos concertos.

Chegou a assumir o papel de guitarrista nos Guns N’ Roses, que abandonou repentinamente e sem aviso prévio, obrigando-os a cancelar os concertos agendados. Também foi considerado para integrar a banda de Ozzy Osborne, mas bastou uma reunião em que Buckethead se recusou responder pelo nome próprio (Brian Carroll) para Ozzy se convencer de que talvez não fosse a pessoa mais fiável do mundo.

Resumindo: Buckethead é o gajo que foi acusado de falta de profissionalismo por Axl Rose e considerado demasiado marado dos cornos para trabalhar com Ozzy Osborne. É preciso dizer mais alguma coisa?

 

Homem de muitos talentos, Les Claypool tornou-se conhecido como o baixista e vocalista da banda funk/metal/progressivo (ou, como Claypool prefere: “polka psicadélica”) Primus, donos de um curiosíssimo som e de proezas de palco bizarras. Ainda tentaram colar esta banda à moda do nu-metal (sobre o qual exerceram influência considerável, para o bem e para o mal), mas o que sai da mente de Claypool é inclassificável: ainda chegou a ser pensado para substituir Cliff Burton nos Metallica mas, obviamente, foi considerado “demasiado estranho” para o grupo.

Mas na verdade a música é apenas um meio para Les — um praticante de longa data da pesca à linha — cumprir o seu objectivo de vida: comprar um barco maior.

 

Os flyers de promoção aos concertos dos Suicide descreviam-nos como sendo “Missa Punk Rock”. Antes de formar a banda juntamente com Martin Rev, Alan Vega pertenceu a um grupo de artistas radicais que, entre outras façanhas rocambolescas, barricaram o Museum of Modern Art.

Os Suicide tocavam uma espécie de música electrónica minimalista, sem guitarras à vista. Apesar disso, incluem-se nesta lista pela influência que receberam do rock — e pela que, por sua vez, exerceram sobre ele.

Os Suicide vestiam-se de forma descrita como de “rufias artísticos” e, nos primeiros espectáculos, Vega aparecia agitando uma corrente de motorizada na mão e com uma atitude confrontacional: assim sendo, não surpreende que a banda fossem muitas vezes vaiada para fora do palco.

Mas esta conversa toda é secundária para justificar o estatuto de freak de Vega. Para isso, basta ver este vídeo dos Suicide a interpretarem o seu maior sucesso: “Ghost Rider”.

 

Fatos-macaco amarelos e capacetes-pirâmide. Assim se apresentam a público os Devo, de que Mark Mothersbaugh foi o elemento mais permanente. A banda foi formada à volta do conceito de “De-evolução” que sugeria que, em vez de progredir, a espécie humana se encontrava em regressão evolutiva.

A sua longa carreira é um perfeito desfile de freakalhices que incluem: desde a teatralidade das suas actuações ao vivo, com cenários elaborados e trajes provocadores (incluindo os icónicos capacetes que são uma das suas imagens de marca), mascotes perturbadoras, música de elevador que tocava na abertura dos concertos ou os Devo a actuar como a sua própria banda de abertura, fazendo-se passar por uma banda de rock cristão chamada Dove (Mothersbaugh, na realidade, é seguidor da pseudo-religião SubGenius).

 

Os anos 70 encontraram um jovem Stuart Goddard em mau estado: diagnosticado com bipolaridade e anorexia, tentou suicidar-se com comprimidos e foi subsequentemente internado num hospital psiquiátrico. Quando de lá saiu, tinha-se reinventado como Adam Ant — Adam como o primeiro homem; Ant (formiga) porque são uns “sacaninhas resilientes”. Depois disso, reuniu a sua antiga banda e, com a ajuda de Malcolm McLaren, forjou uma série de hits pós-punk com laivos de glam e doses generosas de humor e extravagância.

Ant notabilizou-se pelo seu peculiar gosto por fantasias: depois de uma fase em que aparecia trajado como um índio norte-americano (pinturas de guerra incluídas), passou a vestir-se de pirata. Reza a lenda que foi Ant quem recomendou a loja onde Michael Jackson comprou o casaco de estilo militar que popularizou.

Apesar de tudo, a idade não atenuou a instabilidade de Adam Ant, que tem somado encontros com a lei e passagens por instituições psiquiátricas.

 

Os anos 60 foram uma altura muito especial. Em que outra época é que um veterano condecorado da II Guerra Mundial, dono de uma cadeia milionária de restaurantes vegetarianos (dos primeiros do género) frequentada pela nata de Hollywood e que tinha morto dois homens a golpes de Jiujitsu em auto-defesa, se converteria em guru espiritual e patriarca de uma comuna hippie, que o seguiam como um deus vivo? O homem em questão era Jim Baker (Father Yod depois da conversão) e a sua estória é relevante para esta lista porque, para além de todos estes feitos, também formou várias bandas musicais com os seus seguidores, como forma de cativar novos discípulos.

Os álbuns resultantes (que agora são autênticas raridades de culto) são o que seria de esperar de um bando de freaks desvairados a tripar em LSD: rock psicadélico e hipnótico, que equilibra momentos brilhantes com longas divagações que raiam o entediante (para quem não esteja sob o efeito de LSD, entenda-se).

Nos anos 70, Yod vendeu o seu negócio e mudou-se com a sua “família” para o Havai. Quando a coisa ameaçava dar uma de Jim Jones, Father Yod sofreu uma crise de fé: convencido de ter perdido a ligação directa a deus, decidiu lançar-se de um penhasco de asa delta, apesar da completa ausência de experiência. Como resultado, despenhou-se nas rochas e morreu passado umas horas, deixando para trás 14 “viúvas” e cerca de 150 “órfãos”.

O vídeo que se segue é um excerto do recomendadíssimo documentário “The Source Family”:

https://www.youtube.com/watch?v=zG29mWKs2-c

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