Demasiado estranhos para viver, demasiado raros para morrer (pt. 3)


Como não há duas sem três, decidimos expandir o nosso catálogo de freaks do rock’n’roll. Os tempos “interessantes” que vivemos merecem uma banda sonora à altura, e quem está melhor posicionado para os pôr em forma de canção do que os alienados deste mundo?

 

Em criança, Austin Wiggin recebeu uma profecia: casaria com uma loira, teria dois filhos que a sua mãe não chegaria a conhecer, e as filhas formariam uma banda de sucesso mundial. Cumpridas as duas primeiras previsões, decidiu dar um empurrão ao destino: tirou as filhas (Dot, Betty e Helen) do liceu, inscreveu-as em aulas de música e meteu-lhes uns instrumentos nas mãos. Que as filhas nunca antes tivessem mostrado o mínimo interesse em ser estrelas de rock, foi algo que nem computou na sua cabeça — e as Shaggs nasceram.

Como o mundo tardasse em reconhecer o génio das manas Wiggin, Austin entendeu que o destino precisava de outro empurrão: estourou as poupanças na gravação de um disco, o único da banda. O resultado foi “Philosophy of the World”, descrito em críticas iniciais como “o pior álbum alguma vez gravado” e noutros termos menos simpáticos.

Mas a conjugação muito especial de inépcia musical, instrumentos desafinados e letras que parecem escritas por uma criança de sete anos com uma inesperada melancolia e desarmante ausência total de artifício eleva o som das Shaggs acima da mera curiosidade. Com fãs de peso como Frank Zappa e Kurt Cobain, as Shaggs foram eventualmente redescobertas e ganharam estatuto de culto, que perdura até hoje. E cumpriu-se a profecia.

 

Adiantados uma boa década no revivalismo psicadélico, os Brian Jonestown Massacre conseguiram a proeza de apontar o rock dos 60s na direcção do futuro. Liderados pelo tão-talentoso-quanto-instável Anton Newcombe, acreditavam estar, juntamente com os amigos/inimigos mortais Dandy Warhols (sim, aqueles dos anúncios de telemóveis), na vanguarda de uma revolução musical.

Decidiram registar tudo num documentário chamado “Dig!”. Ninguém sai especialmente favorecido no retrato: os Warhols parecem uns hipsters petulantes a colar-se ao street cred dos BJM, enquanto Anton comporta-se como se o talento fosse licença para ser um perfeito anormal. O seu comportamento errático, agravado pelo abuso de substâncias, fez com que os concertos da banda tivessem sempre desfecho incerto, dada a sua tendência para iniciar conflitos ora com os colegas de banda, ora com o público. Por esta altura também a amizade entre as duas bandas já se tinha degradado bastante, com Anton convertido em stalker dos Warhols (que, ao contrário dos BJM, conseguiram sair da obscuridade, em boa parte graças à tal cena dos telemóveis).

Por tudo isso e muito mais, o resultado é um documentário com momentos que não estariam fora de lugar numa paródia, como a deixa: “you fucking broke my sitar, motherfucker”.

 

Num género musical que se especializa em fazer merdas chocantes, a freakalhice é o modo de actuação por defeito no black metal — o que, aliás, coloca em dúvida a sinceridade de muita dela. Entre muitos litros de sangue verdadeiro e/ou falso, um ou outro sacrifício animal em palco, aplicação generosa de maquilhagem, simpatias políticas muito pouco recomendáveis, torna-se difícil distinguir o que é esquisitice do que é convenção do género.

Mas há qualquer coisa em Gaahl, parece-me, que o distingue dos seus parceiros de crime. Não tanto as façanhas da praxe, como ter cumprido pena de prisão por altercações várias ou actuar ao lado de cabeças de ovelha empaladas… Quando uma equipa da Vice o visitou para gravar um documentário sobre a cena Norueguesa de black metal, ele levou-os (com um propósito que, certamente, ficará entre ele e Satanás) numa caminhada de horas pela neve para mostrar a cabana que os avós construiram. Quando, mais adiante no vídeo, uma pergunta do repórter ficou aquém dos seus exigentes padrões de qualidade, Gaahl limita-se a fitar intensamente a câmara em silêncio durante longos, deliciosamente desconfortáveis minutos.

Em 2008 assumiu publicamente a relação com o estilista Dan De Vero, perante a consternação de alguns fãs (a quem respondeu com característica moderação). Desde então, entregou-se a projectos alternativos como desenhar uma linha de roupa com o companheiro, presumimos nós esgotando o stock Norueguês de cabedal e tachas de metal.

 

Juntamente com os seus 13th Floor Elevators, Roky Erickson é universalmente creditado por formular o som do rock psicadélico dos anos 60. Se têm acompanhado esta série de textos adivinharão o que isto implica: muito LSD, que Roky (descrito por alguns como sendo “não deste mundo”) abraçou com abandono.

Um passado familiar tramado, juntamente com um internamento longo numa instituição psiquiátrica de alta segurança, foram a gota que fez transbordar a psique de Roky. O diagnóstico: esquizofrenia paranoide.

Ainda assim, foram poucos os artistas seus contemporâneos capazes de fazer uma transição feliz para os anos 70-80. Roky conseguiu-o criando o seu próprio género musical: horror rock. Que, ao contrário de outros que se lhe sucederam, era a expressão sincera dos terrores que o assombravam. Convenceu-se que tinha vendido a alma ao Diabo; que era um alienígena, um demónio, um monstro… Pelo caminho perdeu todo o interesse pela música e regressou a casa da mãe com quem viveu em virtual clausura, praticamente sem outra companhia que uma TV permanentemente ligada (aos altos berros) e uma colecção impressionante de junk mail.

Foi muito mais tarde, graças à perseverança dos irmãos e uma injunção dos tribunais, que Roky regressou ao mundo dos vivos. Devidamente medicado, recuperou gradualmente boa parte das funções e regressou à música e aos palcos. Em 2010 lançou o primeiro álbum de originais em 14 anos, o aclamado “True Love Cast Out All Evil”. E acho que ainda é a única pessoa no Mundo que a Wikipédia lista como ocupações: “músico, cantautor, alienígena”.

 

Durante mais de 20 anos, a identidade de Jandek foi um dos segredos mais bem guardados do rock, com a sua marca de blues atonais, fragmentados, com afinações esquisitas que muita gente tomou por desafinação.

Desde o álbum de estreia em 1978 até 2016, o misterioso Jandek produziu e distribuiu largas dezenas de discos (até 5 no mesmo ano!), tudo a partir da igualmente misteriosa editora Corwood Industries, da qual tudo o que se conhece é uma caixa postal em Houston, Texas. Durante boa parte desse tempo, a única pista para a identidade de Jandek eram as capas dos seus álbuns, que frequentemente retratavam o mesmo homem em fotografias granulosas.

Com os anos, a estranha aura gerada à volta da sua música e identidade atraiu um pequenino exército de fãs devotos, que incluem gente como os Sonic Youth, Bill Callahan, Death Cab For Cutie, Pearl Jam…

E em 2004, contra todas as expectativas, o homem por detrás do enigma deu-se a conhecer ao público com uma série de concertos ao vivo. Ao que tudo indica, a sua identidade será a de Sterling Richard Smith, agora com 71 anos mas quase tão reservado como quando começou.

 

Mesmo antes de encarreirar na música, Wendy O. Williams tinha já um extenso currículo que ia de cozinheira macrobiótica, salva-vidas, dançarina a performer numa trupe de sexo ao vivo, cujo leque de truques incluia um famoso com bolas de ping-pong.

Do convite do manager musical (e seu parceiro) Rod Swenson para formar uma banda punk rock nasceram os Plasmatics, que se notabilizaram pelo som pesado e presença em palco caótica. Com os Plasmatics ou a solo, a invariavelmente semi-nua Wendy entretinha-se a explodir partes do cenário e a cortar guitarras a meio com uma moto-serra.

Por finais da década de oitenta, Wendy estava decididamente “farta de lidar com pessoas” e retirou-se para o campo com o companheiro. Até ao dia do seu suicídio em 1998, entregou-se ao cuidado de animais e outras causas ecologistas.

 

Sabem aquela cena de acender um isqueiro num concerto? Foi o Kim Fowley que inventou. Na verdade, o Kim Fowley teve as suas mãos atrevidonas um pouco por toda a música pop dos anos 60/70 (e décadas seguintes), como poucos além dele. Enquanto produtor, músico, agente, promotor, esteve envolvido nas carreiras de dezenas de artistas, como Joan Jett & the Runaways, KISS, Blue Cheer, Alice Cooper, The Seeds, Ariel Pink e muitos, muitos outros. A sua própria carreira a solo gerou 29 álbuns de originais, com títulos como “Outrageous” e “Animal God of the Streets”.

Antes disso tinha trabalhado — o próprio confessa — na indústria do sexo, e essa propensão para o lado mais sórdido da vida nunca o abandonou.

Como desejo final, o sempre ofensivo Fowley pôs o corpo à disposição da “Girls & Corpses Magazine” (que, como o nome indica, mistura, bem, gajas e cadáveres). O resultado foi uma sessão fotográfica que me coibirei de descrever, mas que os mais mórbidos poderão encontrar facilmente com uma breve pesquisa no Google.

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