Demasiado estranhos para viver, demasiado raros para morrer


Hunter S. Thompson descrevia assim Oscar Zeta Acosta (o amigo advogado em “Fear And Loathing In Las Vegas”). Em jeito de celebração tentamos apresentar, de forma não exaustiva, uma lista da crème de la crème dos freaks que ajudaram a construir a história do rock’n’roll. Por uma razão ou outra, nenhum deles foi verdadeiramente absorvido pelo mainstream. E talvez seja pelo melhor: se tivesse acontecido, e nós calhássemos de beber dele, poderíamos andar todos por aí a alucinar horrores.

 

A história de Syd Barrett é algo trágica. Depois de conduzir, como guitarrista e principal força criativa, os Pink Floyd ao estrelato, Barrett sucumbiu de forma bastante espectacular — e pública —às pressões da fama (e de uma dose ou outra a mais de LSD). David Gilmour, que viria a preencher definitivamente o lugar de guitarrista, foi contratado nesta altura precisamente para acudir à guitarra nas frequentes alturas em que Barrett simplesmente desistia de tocar a meio de um concerto.

O celebradíssimo “Wish Your Were Here” foi escrito largamente com Syd em mente. Este visitou o estúdio onde a banda estava a gravar, já depois da separação. Segundo consta, a imagem do amigo de cabelo e sobrancelhas rapadas, com vários quilos a mais e a pular ao som da música, deixou neles uma marca indelével.

O punhado de álbuns que lançou a solo, para além de constituírem um tesouro musical por si só, são um registo ímpar do colapso mental de uma pessoa, em tempo real.

 

Fadado ao mesmo destino parecia estar Julian Cope. Uma breve e atribulada passagem pelos Teardrop Explodes acabou com Cope em seclusão e com a psique seriamente fragilizada por vários anos de abuso de drogas recreativas (sim, o LSD estava presente). Mas Julian Cope recuperou e desde então tem criado uma vasta e eclética obra. Pelo caminho, conquistou respeitabilidade como antiquário e converteu-se numa autoridade sobre a pré-história, com vários livros de referência publicados sobre o assunto.

Mas não se deixem enganar: Cope ainda anda por aí a pintar a manta com a banda de anarco-folk Black Sheep. Como poderão ver no seguinte vídeo promocional, uma vez um freak, para sempre um freak.

 

Arthur Brown não teve uma carreira especialmente digna de nota. Teve um par de êxitos durante a década de 60, que viveram muito da sede que havia por tudo o que fosse minimamente ultrajante. Teve uma breve aparição num filme contra-cultura e desapareceu da vista pública pouco depois.

Simplesmente, tinha o hábito de actuar com uma coroa em chamas que frequentemente lhe queimava o couro cabeludo. Mas, se não fosse por mais nada, a sua forma hilariante de dançar merece-lhe um lugar nesta lista. Como uma imagem vale mais que mil palavras, convido-vos a ver a seguinte actuação de 1975 no Top of the Pops:

 

Há freaks e freaks, mas nem todos com direito a diagnóstico clínico: esquizofrenia paranóide. Wesley Willis gozou desta dúbia distinção até à sua prematura morte em 2003 (40 anos). Artista prolífico, foi o compositor e vocalista na sua própria banda, os hard rockers Wesley Willis Fiasco, com quem atingiu alguma notoriedade antes de perseguir uma carreira a solo.

Para ele, a música não era uma mera forma de se expressar: as letras frequentemente obscenas que escrevia serviam, segundo explicava, para manter afastados os seus “demónios” (que para si assumiam significado literal). E, para si, o rock’n’roll oferecia a sua contraparte: Willis descrevia-o como a sua “joy ride music”. A título de exemplo, aqui fica uma música (presente no documentário “Super Size Me”):

https://www.youtube.com/watch?v=QWWsWP9bPAg

 

Praticamente toda a gente conhece Frank Zappa, um freak musical de seu pleno direito. Menos conhecido foi o seu frequente co-conspirador/rival ocasional Don Van Vliet AKA Captain Beefheart. Estreou-se com um álbum que misturava de forma inspirada o rock psicadélico (provavelmente influenciado pelas suas abundantes experiências com — adivinharam — LSD) com uma forma angulosa de blues, cantados com uma voz arenosa que lhe valeu comparações a Howlin’ Wolf. Progressivamente, o som saído das oficinas de Beefheart foi-se tornando progressivamente fracturado e abstracto, culminando na obra-prima estrambólica (e profundamente influente) que é o “Trout Mask Replica”. Para o gravar, Beefheart fechou os seus músicos (que subsistiam apenas por graça de pensões estatais) numa casa e submeteu-os a um regime ditatorial de terror. Para compor as músicas do álbum usou o piano, instrumento que não sabia tocar.

Por volta da década de 90 Van Vliet largou o pseudónimo, abandonou os palcos e dedicou-se inteiramente a outra das suas paixões — a pintura.

 

Aqui temos um freak… homicida! Bobby Beausoleil não encontrou a fama como músico, mas tornou-se infame pela sua associação com outro ilustre alucinado, nada mais nada menos que Charles Manson. Membro da seita de hippies responsável por uma macabra série de assassínios, foi condenado a pena perpétua pela morte de um traficante de droga que lhe tinha vendido mescalina de má qualidade. Já na prisão, foi contratado para compor aquele que é provavelmente o seu trabalho musical mais conhecido — a banda sonora de “Lucifer Rising”, realizado por um gigante do cinema freak: Kenneth Anger. Na verdade, Beausoleil foi chamado para substituir Jimmy Page, que tinha sido incapaz de produzir a música a tempo, incorrendo na ira de Anger.

https://www.youtube.com/watch?v=0Owk2dVDzzY

 

Pouco/as freaks, dentro ou fora da música, têm tanto direito ao título como Genesis P-Orridge (nascido Neil Andrew Megson). Fundador/a dos industriais Throbbing Gristle e, mais tarde, dos experimentais Psychic TV, onde explorou interesses pessoais como o ocultismo, sexualidade, drogas e transformação corporal extrema. Vejamos: com a sua segunda mulher embarcou num projecto que o fez submeter-se a uma miríade de alterações cirúrgicas, com o fim de se assemelharem fisicamente e se transformarem numa única entidade pandrógina. Lady Jaye Breyer P-Orridge, a sua mulher, morreu entretanto, mas Genesis prosseguiu com o seu projecto de transformação, referindo-se a si próprio/a pelo pronome “nós”. Recentemente, Genesis promoveu uma campanha no Kickstarter para financiar a produção dum documentário, apresentado por si, sobre a tradição de vodu no Benim.

 

Gibby Haines estava bem encarreirado para se tornar um cidadão exemplar: estrela da equipa de basquetebol do liceu, presidente de uma fraternidade numa universidade de prestígio e eleito Estudante de Contabilidade do Ano nessa mesma instituição. Após um ano a trabalhar numa firma de contabilidade… despediu-se e fundou os Butthole Surfers, banda conhecida pelos espectáculos caóticos, violentos e perturbadores, que punham em risco tanto a banda como o público. Luzes strobe, dançarinas despidas, incêndios improvisados, sexo (alegadamente) simulado eram apenas algumas das coisas se podia ver num concerto dos Butthole Surfers na sua época mais transgressiva. Não dá mesmo para inventar merdas destas.

 

GG Allin é o tipo de freak que gostamos que tenha existido, mas que agradecemos não termos conhecido em pessoa. GG (assim chamado pela forma como, em criança, o irmão pronunciava o seu nome de baptismo: Jesus Christ) considerava-se o único avatar legítimo do espírito do rock’n’roll. E ao que parece, para ele o espírito do rock’n’roll envolve coisas como coprofagia, masoquismo, automutilação, violência gratuita e exposição indecente.

Criado num buraco remoto dos EUA sem água canalizada ou luz eléctrica por um pai abusivo e fanaticamente religioso, a vida de GG foi desde o início uma espiral descendente de episódios alucinados, bem regados com toda a forma e feitio de estupefacientes.

A 27 de Junho de 1993, após um concerto que, como tantos outros, foi prematuramente interrompido, GG decidiu dar um passeio pelas ruas de Manhattan despido e ainda coberto das suas próprias secreções fisiológicas. Após regressar ao apartamento de um amigo, GG consumiu uma dose de heroína que teve o resultado fatal que, inevitavelmente, há tanto tempo pairava sobre a sua cabeça. Deixou vasta obra em géneros que vão do country ao rock.

As últimas horas da sua vida ficaram registadas em vídeo (obviamente NSFW, mas não tanto como outros que se podem encontrar no Youtube).

https://www.youtube.com/watch?v=gYSNTXbpnL8

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