Morte ao sono


A palestra que Jonathan Crary deu no MACBA em 2006 e a que deu o nome de On the Ends of Sleep: Shadows in the Glare of a 24/7 World, começa com a descrição do pardal de coroa branca, ave migratória com a habilidade de se manter acordado por períodos de tempo invulgarmente longos (chegam a estar despertos por mais de sete dias seguidos). Particularmente curiosa é a atenção que esta pequena criatura tem recebido do Departamento de Defesa dos EUA, responsável pelo financiamento de vários estudos universitários sobre a actividade cerebral desta bicheza pardaleja, com o fim de descobrir a raiz desta peculiar capacidade.

A razão, conclui JC, é evidente: estas investigações são apenas uma parte de um esforço militar (que inclui entidades como a DARPA, a que são creditadas inovações técnicas como a Internet e o bombardeiro Stealth) na busca de um soldado imune ao imperativo do sono.

A palestra (cuja transcrição completa está aqui e recomenda-se) identifica uma tendência global de encurtamento do tempo destinado ao sono e traça a correlação entre este fenómeno com o do controlo social. Não é difícil de perceber, se considerarmos que a privação de sono é uma técnica de tortura (ou, à americana, uma “técnica aperfeiçoada de interrogação”) frequentemente usada, por exemplo, em campos de detenção como os de Abu Ghraib e Guantanamo.

Aliado a isto, o facto de passarmos uma porção tão significativa do nosso dia a dormir está em directa contradição com as exigências de uma sociedade que exige a nossa atenção 24 horas por dia, 7 dias por semana. Os horários alargados de trabalho (em sintonia com a máxima “Chegar Mais Cedo, Sair Mais Tarde” de que os nossos empregadores-em-tempo-de-crise gostam tanto) são uma parte desta tendência. A ubiquidade das tecnologias de comunicação é outra parte. Um estudo recente revela, por exemplo, que 60% de profissionais que usam smartphones permanecem em contacto com o trabalho 13,5 horas/dia (outro, que 50% verifica o e-mail enquanto está na cama). Mas, por agora, o sono permanece uma fronteira relativamente intransponível, ao abrigo destas tentativas de intromissão.

Never get out of bed before noon.

Charles Bukowski

Tudo isto nos traz ao último empreendimento criativo de Jeff “The Dude” Bridges (um tipo fixola em qualquer sentido): um álbum musical a contra-corrente, que mistura spoken word improvisada com ambientes sonoros minimalistas, drones, espanta-espíritos, putos a brincar e outras coisas hippy-chulezudas do género. A um mundo cada vez menos complacente com um bom e regalado sono, Bridges oferece um álbum imbuído de teimosa indolência, sem pretensão maior que a de proporcionar uma boa banda sonora para aquela modorrinha de uma manhã de domingo.

E, porra, não é essa uma dádiva do mais generoso que há?

The Dude, indeed, abides!

The Dude, indeed, abides!

Vá, visite o site, descarregue o sonoro (o valor da compra, que cabe a si escolher, reverte a 100% para uma instituição de combate à pobreza infantil) e volte a correr para a cama. Isto são lá horas para se estar acordado?!

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