Sugestões musicais para o dia de São Valentim


São Valentim

São Valentim (wikicommons)

O Dia dos Namorados está a chegar. Não tarda e o São Valentim aí está, a descer-nos pela chaminé, a brincar com os nossos ovos e a deixar-nos prendas tipo caixas de chocolate e dildos cor de rosa. No espírito da coisa, decidi deixar aqui três sugestões musicais e uma breve olhadela ao seu conteúdo doce, tão doce.

“Rude”, MAGIC!

Não há como falhar com um mega-sucesso destes, um épico sobre um gajo (vou-lhe chamar O Mágico) que se quer casar com uma rapariga e por isso vai pedir a mão em casamento ao pai da moça, que lha recusa. Óó! Então vai daí e O Mágico acusa o quase-sogro de ser “rude”. E é isto.

Portanto, ou O Mágico acha que dar a mão da filha em casamento ao primeiro gajo que se deu ao trabalho de vestir um fato é uma questão de boa educação, ou então o vocalista dos MAGIC! é o Jar-Jar Binks. O argumento dele é que ele (o cantor) é humano. Não sei, parece-me um critério muito fácil de satisfazer.

Para música romântica, tem o problema de que O Mágico nunca fala com a noiva, nem fala do que ela quer. Só de si mesmo, e de como é uma questão de cortesia básica deixar qualquer pessoa, desde que seja, tecnicamente, um ser humano, casar com a nossa filha. Basicamente, é uma música romântica sobre a relação entre dois homens que usam a filha de um deles como vagina-de-substituição. Não sei, acho que é muito fora para uma canção de São Valentim. Vamos à próxima.

“Às Vezes”, D.A.M.A.

Ah, yeah! Agora sim, uma canção dos D.A.M.A. a serenar a sua, ah, dama. Eis então a opus beto-core dos D.A.M.A. sobre os seus problemas amorosos.

Infelizmente, neste caso o problema é os D.A.M.A. serem mais sebosos do que aquele molho dos leitões da Bairrada. Então aqui está um deles, a explicar que ele não é desses de se apegar, e sai-se com isto:

Baby, eu sou a folha em branco dos romances que tu lês.

Vou precisar de desengordurante industrial para me livrar disto. A parte mais perturbadora é que este sujeito acha que isto é uma coisa fixe, uma coisa boa. Mas pessoalmente, quando alguém se descreve como uma folha em branco, penso neste man.

Não satisfeitos, eles atiram-se, com toda a flácida ferocidade do seu sotaque/voz beto, num hino do cretino, que inclui o sujeito dizer que ela tem um vício incontrolável por ele porque ele é “perigoso” (nada diz “perigo magnético” como um queque da Linha).

Não sei, não há grande coisa a dizer. As letras falam por si. Mas ao menos posso agradecer aos D.A.M.A. por finalmente terem providenciado um termo em português para o inglês “douchebag” (significado de calão). E esse termo é D.A.M.A.

Próxima.

“Morena”, Tiago Bettencourt

Vamos ver se à terceira nos safamos. Aqui temos um dos maiores, se não o maior, dos heróis da nova vaga do douche-pop português (ou D.A.M.A.-pop, se preferirem), Tiago Bettencourt (o homem tem a raiz bet- logo no nome, não engana). Neste épico amoroso, o Tiago fala-nos de uma morena, daí o nome da canção, “Morena”.

As coisas começam bem: o Tiago diz-nos que ela lhe disse que tem namorado, mas sem paixão no olhar.

Hm. Não sei. Há aqui umas vibes que… Ainda mal começámos, e o Tiago já está a reinterpretar uma clara rejeição de maneira que lhe seja favorável numa de “tu dizes que não mas eu sei que sim” (man, mesmo que ela tenha mentido sobre ter namorado, ainda assim é sinal de que provavelmente não te curte assim tanto). Será que o resto da canção vai seguir no mesmo tom? Já vemos.

Logo a seguir, o Tiago diz-nos que o corpo dela tem sede de quente, mas não sente calor: código transparente (extremamente transparente) para dizer que o que ela quer é foda mas que é uma frígida, ou pelo menos que lhe está a bloquear a jogada. É uma escalada rápida, mas, justiça lhe seja feita, consistente. Depois de ela lhe dizer “tenho namorado” e ele ouvir “não tenho namorado, quero-te”, agora ele olha para ela, vê o corpo a dizer “por favor não me toques” mas lê “por favor penetra-me”. Ainda mal começamos, e provavelmente a rapariga já devia estar a pensar em como sair de onde quer que estejam sem que ele repare.

Mas ela não faz isso, infelizmente, o que só alimenta o Tiago. Ouçamos: depois de se chorar que ela não dança quando ele lhe mostra Jobim, chegamos ao verso. Aqui as dúvidas começam a dissipar-se. Diz-nos o Tiago que ela não sabe bem, mas que ele no fundo sabe que ela, no fundo, quer fodê-lo.

Morena não sabe bem, mas eu no fundo sei
Que quando o véu lhe cai
Quando o calor lhe vem
Sempre que a noite quer
Sonha comigo também

O meu conselho à Morena: não te deixes apanhar numa sala sozinha com o Tiago. É bastante claro que ele acha que sabe melhor do que tu se o queres foder ou não, e que claramente queres e qualquer tentativa de o negar é só um véu que te cai quando te chegam os calores. E normalmente isso resulta em, ah, como dizer isto educadamente… Violações. Normalmente resulta em violações.

E só para deixar isso bem claro, o Tiago atira-nos com esta:

É de mim que ela precisa
Para lhe dar o que não quer

Foda-se.

Depois de deixar claro que tem sonhos quentes e húmidos com a Morena e que lhe quer dar o que ela não quer(!), o Tiago trata de deixar bem claro que acha a gaja fútil. Ela não chora com fados nem com poemas do O’Neil na primeira luz da manhã. Aqui o Tiago revela que além de estar a uma oportunidade de cometer um crime horrível, é também um pretensioso e que a vacuidade de que acusa a Morena provavelmente mora na sua alma. Remata o pensamento com

Canta-me letras de cor
Mas não lhe passam por dentro,
Não lhes entende o sabor

Porra, não sabia que o Luís Freitas Lobo também escrevia canções. Seja como for, reforça a ideia de que a Morena é uma fútil, na opinião do profundíssimo Tiago. É assim, a gaja é fútil, mas é boa. Ela não quer foder o Tiago – claramente não lhe dá bola – e provavelmente isso é porque ela é demasiado superficial para chorar com fado ou coisa do género, mas no fundo, no fundo, ela quer o Tiago bem dentro dela, n’est-ce pas? Ele sabe, ele é que sabe. Gaja estúpida.

Felizmente, o Tiago é um violador-em-potência bastante falho de iniciativa, e por isso espera que a Morena corra para ele, e não sai do sofá.

Esta Morena não corre quando a chamo pra mim,

chora o Tiago;

E quando ela foge
Tanto lhe faz
Quando eu me vou
Morena não vem atrás

É, normalmente as potenciais vítimas de violação não voltam a correr para um violador de quem fugiram e que, esperamos nós, está a ser levado em algemas.

Esta safou-se.

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