As legislativas mais gráficas de sempre


Muito se tem feito da polémica à volta dos cartazes para as eleições legislativas que se avizinham: o PS terá pago a soma de 666 dobrões de ouro, 15 barras de urânio enriquecido e 20 virgens pré-adolescentes ao titã criativo Edson Athayde para gizar uma campanha em que uma senhora com poderes mágicos vira uma literal página meteorológica. Mais tarde, vai-se a ver que um testemunho real tinha pouco de real, ou de testemunho. Depois noticia-se que os rostos usados nas campanhas do PSD/CDS eram — horror! — de modelos e não da boa, simples gente que aparentavam ser. Agora revela-se que os direitos de utilização dessas fotos não terão sido adquiridos! A silly season chegou e fez-se anunciar com outdoors.

Finalmente, estamos a discutir política nos termos que eu conheço. Sinal que a sociedade civil começa a valorizar aquilo que realmente interessa, em eleições: o design gráfico.

Quem é o primeiro-ministro mais sexy, quem é?

Consideremos a paleta cromática da “Coligação Portugal à Frente”: a combinação clássica do azul e do laranja. O observador leigo poderia, compreensivelmente, julgar que o fizeram como referência às cores dos dois partidos: o azul do CDS-PP e o laranja do PSD. Ao profissional das artes gráficas, no entanto, não escapa a verdadeira intenção por detrás da escolha deste esquema cromático.

Ora, o laranja e o azul, nesta conjugação particular, tem dado muito que falar como uma tendência (ou uma praga de proporções bíblicas, dependendo do ponto de vista) que tomou o mundo de assalto, nomeadamente no cinema e no design gráfico.

Azul e Laranja!

Qualquer pessoa que tenha frequentado o ensino básico deve recordar-se que o laranja e o azul são duas cores complementares, ou seja, estão em pólos opostos do espectro cromático. Em termos simples, isto torna-as, bem, mais contrastantes, por conseguinte mais impactuantes.

Já estou a imaginar o briefing, conduzido pelo Portas — que até tem uma conhecida predilecção pelo pigmento laranja, sobretudo na forma epidérmica —: “Queremos uma coisa dinâmica! E apelativa! Mas sobretudo DINÂMICA, estão a ver?”, com Passos Coelho, ao lado, a assentir: “Dinâmica! Sinergias! Mindset! Chavões!”

O resultado, apropriadamente DINÂMICO!, reforçado com uma tipografia geométrica quase sempre em caixa-alta e linhas oblíquas, compete em elegância e subtileza com os supermercados Carrefour.

António Costa

E o que fazer da identidade visual da campanha do candidado pelo PS, o António Costa, com o imaginativo slogan “Alternativa de Confiança”? A primeira coisa que salta à vista é a predominância do vermelho nos suportes de comunicação. Será uma forma subtil de seduzir o eleitorado mais à esquerda? Se for o caso, é uma estratégica que tem o seu quê de dissonante-cognitivo, já que o discurso de Costa revela a todo o momento o mais profundo desprezo por esses eleitores (apresentar-se como a “alternativa de confiança” parece implicar uma falta de vontade política para procurar entendimentos à esquerda).

Outro pormenor interessante: atente-se no logótipo de António Costa. Os designers decidiram fazer um jogo castiço com o O de “Costa”, desenhando o que parece ser (é difícil precisar, a execução é um tanto tosca) um nascer do sol. Ah! Esperança! O raiar de um novo dia! Olha, recorda-me um outro logótipo, para uma campanha eleitoral de 2008. Era um jogo castiço em que se desenhava um nascer do sol com o O do nome do candidato, um tal de… Barack Obama.

Esperto, Costa, esperto. O efeito geral da campanha é o tornado de imaginação e originalidade que já se conhece, e a escolha de logótipo uma representação perfeita disso.

Esta discussão sobre os cartazes eleitorais, parece-me a mim, reflecte a distância que separa os dois principais concorrentes: é um tremendo barulho em torno de um imenso nada.

Ei, direitos de autor!

Ei, direitos de autor!


Imagem de destaque da autoria de José Goulão.