Azeite Expiatório


Ah, Setembro!

Como o Sol ainda brilha, e quão tranquilo se torna este jardim à beira-mar plantado!

É o fim do Despacito a bombar às três da manhã, dos carros estacionados em qualquer superfície sólida, das saídas à noite de calção e chinelinho, do françuguês mal alinhavado na fila para o McDonald’s!

Durante o mês de Agosto, como já vai sendo tradição, as redes sociais enchem-se de escárnio pelos nossos emigrantes, com especial incidência nos francófonos.

É a chico-esperteza ao volante do carro alugado (importa parecer bem na vida!); é o português mal disfarçado por quem alternadamente se orgulha e envergonha das origens; é o terço e a Nossa Senhora de Fátima fluorescente; é o emblema da Federação Portuguesa de Futebol confundido com a bandeira nacional…

… é, em suma, o azeite!

Durante um mês inteirinho podemos expiar a própria tacanhez e falta de sofisticação no nosso semelhante que partiu para outras terras. Tal é a sanha escarninha nas ditas redes, que já não basta colocar fotografias de carros acidentados com matrícula estrangeira: tudo serve, os portugueses também!

Junta-se o coro em uníssono a gritar «azeiteiros, azeiteiros!»

De repente, todos os Kevins Ronaldos e Jéssicas Vanessas de Portugal sobem de categoria. De repente, não são a última galinha a levar bicada.

Quanto se poderia discorrer (já que o azeite, esse, escorre) sobre esta nossa maneira de estar no Mundo! Sobre este misto de inveja e falta de auto-estima tão próprio de ser português.

Deste lado, dilectíssimo leitor, só duas coisas nestes portugueses ambulantes eu nunca entendi:

— O «orgulho» num país que nada lhes deu e os obrigou a partir;

— A insistência masoquista em regressar e enfrentar o coro destes dez milhões de comadres penduradas à janela!

Desejar-te-ia, ó mui requintado leitor, uma boa rentrée, mas não quero arriscar a fúria que fervilha nessas teclas ao leres uma expressão vinda do país que ganhou o Mundial 😉


Foto de destaque da autoria de Christian Sisson.

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