Declaração anti-praxe


Antes que se aproximem as festividades relativas à praxe: essa mui-nobre, essa mui-ruim, essa escabrosa e deselegante maneira de “incluir” os novos estudantes e que muitos debates incendeia.
Mas não há muito para debater, trata-se de uma maneira humilhante de reduzir o mero adolescente a um lacaio, que por muito que se tente debater, consigo, com os pares ou com os seus “sargentos”, acaba por ceder (na maior parte das vezes), apenas porque ninguém quer ficar sozinho neste pequeno e efémero momento passageiro que é a vida. Muito menos quando se tem ínfimos 18 anos.
Pois é nestas circunstâncias que o rapaz ou rapariga se encontra quando chega à Universidade, que tanto anseia, local das histórias de folia e rambóia que os irmãos e irmãs, primos, primas, tios, tias e afins lhes contaram.
E chegam prontinhos para serem violentamente e muitas vezes absurdamente recriminados pela sua simples existência e presença no campus.

Muito impressionantes estas imagens qualquer que seja o contexto portanto.

Muito impressionantes estas imagens, qualquer que seja o contexto portanto.

Eu admito passei por elas todas, mas tive sempre a noção, ou pensava eu, que apenas fazia as coisas que queria fazer e ia levar tudo aquilo comigo mais tarde.

Bem, foi durante a praxe que conheci a maior parte daqueles amigos que ainda hoje estão presentes e a quem nesta altura convivo e parabenizo pelos casamentos, filhos, casas, empregos ou tento ser ouvido para as suas desilusões, lutas, desafios, desabafos.

Mas a verdade é que apenas fui a uma dezena de dias de praxe, não tendo ido a praxe de curso, tenha chegado atrasado ao cortejo e embora me tenha divertido em todas elas ( mais ou menos ), preferia estar com os “engenheiros” que com os caloiros, ou melhor preferia o convívio em casa ou no cafe que a rebolar na relva, fazer figura de parvo na rua ou apenas de quatro durante horas.

Os melhores momentos foram sem duvida as jantaradas, as tardes de esplanada, as conversas com pessoas mais velhas e mesmo colegas de curso de outras localidades e passados.

Não acredito que nenhuma parte da praxe me tenha ensinado alguma coisa que não sabia antes, e sinceramente, tenho que agradecer a leniência e amizade do meu “padrinho” e “primos” de praxe, que para além do primeiro ser meu cardeal e os segundos meus “engenheiros”, os quais me podiam ter obrigado a quase tudo ( como os caloiros leitores, ou antigos caloiros leitores, podem confirmar ), pediam-me apenas para tratar do jantar, limpar a casa de banho, ir buscar comida às tantas da manha, apenas porque eram preguiçosos ou se aproveitavam da minha submissão.
Sei bem de casos de outros caloiros que não lavavam apenas uma casa de banho dos seus “engenheiros” e “doutores”, mas toda uma casa sem mera recompensa, quando eu, no fim da minha tarefa, recebia no mínimo uma cerveja ou ate uma tarde inteira no cafe às contas dos meus, posso dizer, amigos.

A verdade é que há vários tipos de praxe, a praxe dos que sofreram e a praxe dos que aproveitaram, mas temo ter que dizer que a maioria foi sofredor, ou apenas estúpido.

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