Deixem lá o novo-riquismo em paz!


De todas as classes económicas, os novos-ricos serão possivelmente os menos populares: os barões desprezam-nos e a populaça ressente-os.

Fala-se muito da falta de bom gosto dos novos-ricos. Se, por falta de formação ou coisa parecida, os novos-ricos não investem na arte certa; se não decoram as casas com os designers da moda, são menos morais por isso?

Outra coisa que lhes censuram é a ostentação. Já dizia o outro que a sede da espera só se estanca na torrente. E porque não? Prefiro poder ver para onde vai o dinheiro, é sinal (mas não garantia) de consciências limpas — o que me assusta são as fortunas subterrâneas.

Pessoalmente, tenho mais simpatia por um novo-rico do que por um herdeiro. Tenho algum respeito por quem, pelo esforço e engenho, deu a volta à sua condição económica. A pobreza não é uma virtude, é algo que se deve pretender extirpar. Parece que muita gente, inclusive da Esquerda, se esquece disso.

É que existe uma diferença muito grande entre acumular riqueza e gerar riqueza. Parece-me evidente que é sobretudo nas velhas fortunas que há essa desconexão entre riqueza criada e riqueza amealhada.

Não que concorde com tudo o que lhes está associado: talvez por terem tido experiência directa com a ascensão económica, há neles uma tentação em crer que o mérito pessoal é tudo quanto baste para qualquer um repetir a façanha.

Mas, pela minha experiência, é sobretudo entre as segundas e terceiras gerações de novos-ricos que circula essa treta demagógica — e esses falam a partir de uma posição de privilégio que não foram eles a conquistar.

Ou seja, esta situação toda exprime a esquizofrenia do nosso sistema económico: por um lado, é esperado que andemos todos atrás da cenoura do alpinismo social; por outro há um desprezo especial reservado aos que se aventuram na escalada. O que me faz crer que o grande tema do sistema NÃO é a mobilidade ascendente.

É mais isto.

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