Difícil de amar o WikiLeaks


Sempre defendi o WikiLeaks dos seus detractores — acho que, em geral, tem sido uma força de mudança positiva no Mundo. Providencia um meio seguro, adequado à realidade tecnológica dos nossos tempos, para que denunciantes possam libertar informação crucial que de outra forma poderia nunca ver a luz do dia.

Também a opção de publicarem a informação que recebem na íntegra, sem censura, é uma decisão com que concordo, mesmo que reconheça os riscos associados.

Acho difícil que ainda haja gente capaz de negar o impacto que tiveram as revelações do WL: dos bombardeamentos ilegais, a Guantamo, ao TTIP, aos Panama Papers, à espionagem indiscriminada de que somos todos, sem excepção, alvo…

Expôs muito claramente a podridão das instituições globais de poder e a necessidade urgente de as reformar, coisa que poderá ser difícil de engolir mas que é inegavelmente crucial. Se o poder o odeia é porque o teme e isso quer dizer que está a fazer o seu trabalho.

Sempre defendi o WL, mas ultimamente parece que o WL não me quer facilitar a vida. Quando o Assange foi acusado de abuso sexual pelas autoridades Suecas, eu reservei o julgamento por ter noção que ele está sob a mira de instituições sem o mínimo compromisso com a verdade; não seria o primeiro nem o último a ter a reputação manchada por ter ofendido quem não devia.

Nas passadas eleições presidenciais Americanas, o WL, ainda que o negue a pés juntos, assumiu uma posição bizarramente pró-Trump. Não vale a pena negá-lo, os leaks acerca dos emails da Hillary — ainda que legítimos e preocupantes por si só — fragilizaram-na e deram força à campanha do Trump. Isso por si só não é condenatório do WL nem indicia favorecimento. São as coisas mais subtis que são problemáticas.

Eu, como mais de 3,6 milhões de pessoas, subscrevo a página do WL no Facebook. Em Novembro, em plena campanha eleitoral, essa página partilhou uma notícia acerca de um email (desse tal leak de que falávamos) que revelava a participação da Hillary em cerimónias ocultistas. Estranho, sobretudo depois do Trump ter dito, sem ironia, que ela era o Diabo. O problema é que essa notícia provinha do site do Alex Jones, um dos mais alucinados teóricos da conspiração da extrema-direita Americana. Ao repeti-la, o WL perde qualquer pretensão de objectividade.¹

Ya, este tipo. Agora, foi a vez de partilhar uma notícia a revelar que o Guardian “censurou” o Assange. Mais uma vez, o problema aqui é que a notícia provém do Breitbart; o Breitbart é afecto à Alt-Right (ou, como eu gosto de chamar-lhe, O Clube de Fãs do Filme “300”); e a Alt-Right é a actual face “respeitável” da extrema-direita que ajudou a eleger o Trump. Fosse eu mais como o Alex Jones e diria que isto cheira a conspiração. Numa altura em que o presidente eleito não se coíbe de ameaçar a imprensa que lhe é crítica de retaliação; em que a erosão de credibilidade dos media tradicionais (lá como cá) leva à propagação de notícias falsas nas redes sociais — este pormenor deve deixar-nos um bocado desconfortáveis.

Os policiais que a minha mãe lia lá em casa tinham uma fórmula simples para identificar o culpado: a quem beneficia o crime? Começo a ficar convencido que não somos nós os beneficiários desta trapalhada toda.


¹ E, vai-se a ver, as “cerimónias ocultistas” referiam-se a uma performance da Marina Abramović. Eu sei que ela não é do gosto de toda a gente, mas daí a chamar-lhe bruxa…

Marina, não estás a ajudar.

Marina, não estás a ajudar. (Manfred Werner / Tsui)

Imagem de destaque da autoria de Graphic Tribe.

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