Fascismo para totós


Anda aí um número crescente de indivíduos a flirtar com as ideias do fascismo, fortemente maquilhadas, como algo de novo, de irreverente, de sexy… Não são (e de sexy percebemos nós). O fascismo é um mecanismo regulador do sistema capitalista dito democrático, uma função aberrante dele. Um tumor. É em alturas de crise aguda, quando vêm ao de cima as insanáveis contradições entre capitalismo e democracia e os seus limites, que o fascismo surge para baralhar e voltar a dar. E estas contradições nunca foram tão críticas como nesta fase de capitalismo tardio, em que a financeirização da economia desafia qualquer definição de bom senso; em que 1% da população mundial possui 82% da riqueza; e nos empurram alegremente para o colapso climatérico catastrófico, pondo em risco a sobrevivência da civilização humana…

Mas o fascismo. É pretensamente um movimento de suporte popular, mas as elites económicas raras vezes deixam de o sustentar. Porque a verdade é que, entre o fascismo e a sublevação popular, nunca deixarão de escolher o primeiro, que apesar de toda a retórica explosiva nunca tenta mexer a sério na estrutura de poder económico. Por isso é que quando o Trump fala de “drenar o pântano”, o que ele pretende mesmo é despejá-lo na Casa Branca. Por isso é que o Putin recheia os bolsos dos amigos ao mesmo tempo que se faz filmar a dar ralhetes a gestores fabris, seus amigos. Por isso é que o Nigel Farage abandona o navio imediatamente após meter-lhe um furo no casco.

So long, suckas! (Gage Skidmore)

Não é por nada que o fascismo é apelidado de reaccionário: é literalmente uma reacção à emergência de movimentos populares legítimos causados pelo descontentamento e ansiedade, em parte gerados pela incerteza económica. Não é coincidência ou sequer contraditória a quantidade de charlatões e oportunistas que utilizam esse descontentamento para proveito próprio: sem um programa político próprio, o fascismo é em si um engodo, que existe unicamente para suspender a democracia em defesa do regime económico e esmagar as ânsias de emancipação popular. O Ur-Fascismo tem muitas formas, alguns denominadores comuns, mas um único propósito real.

Obviamente, isto não se faz sem algum sacrifício que satisfaça a sede de revanche social. Mas é um sacrifício feito a partir do deslocamento dos alvos. É mais ou menos indiferente (excepto para os visados, para quem a diferença é grande) qual é o bode expiatório eleito: os judeus, os roma, os imigrantes, os muçulmanos… O fascismo não é possível sem que alguma comunidade, geralmente entre as mais desprotegidas, tenha que pôr a cabeça no cepo. Para que as elites possam manter as suas.