Filantropo, ma non troppo


A notícia é bombástica e espalhou-se pelas redes sociais como um vírus: o CEO do Facebook, Mark Zuckerborg, hã… Zuckerbing, vai doar à caridade 99% da sua fortuna pessoal. Fé na Humanidade restaurada?…

Ah, mas espera. Se lermos as letras pequenas, a trama adensa-se. O Zuckerbro’, afinal, não vai doar os mais de 45 biliões de uma assentada, mas durante um período de 45 anos. E vai fazê-lo por via da sua fundação, a Chan-Zuckerberg Foundation, que não é uma caridade tradicional mas uma LLC, sociedade de responsabilidade limitada.

Este expediente tem a particularidade de, por exemplo, permitir que a sua fortuna possa ser herdada (o Zuckerbleh acabou de ter o primeiro filho), via fundação, isenta de impostos. O seu estatuto também lhe permite investir em negócios com fins lucrativos, e o dinheiro gerado pode ou não ser canalizado para as acções de caridade da fundação.

Nada disto é novo, o mesmo modelo é usado pelo Bill Gates e outros filantropos de Silicon Valley. O que faz levantar sérias questões quanto à pureza de intenções desta gente, claro está.

Mas coloquemos o cinismo de lado por um momento e admitamos que os intuitos são estritamente nobres. Mesmo assim, há uma enorme perversidade inerente a esta ideia de serem os mais ricos do mundo a resolver os problemas dos mais pobres do mundo. Sobretudo se tivermos em conta que muitos destes problemas são criados pelos primeiros.

Já agora, querem saber qual é a melhor forma, comprovada, de ajudar uma população afectada pela pobreza? É dar o dinheiro directamente às pessoas, para que elas o usem da forma como bem entenderem. Não que isso sirva de impedimento para estes milionários beneméritos. Alguns exemplos:

O Bob Geldof foi o empresário visionário por detrás de iniciativas como a Band Aid e o Live Aid, que nos anos 80 (e de novo em 2014) massacraram o bom gosto musical em nome do combate à fome na Etiópia. Tudo bem, fim que mais do que justifica os meios, mesmo que estes meios tenham muito mais Bono do que seria desejável. E quão eficazes foram? Pois, não muito. Soube-se, mais tarde, que quase nenhum do dinheiro angariado chegou às mãos dos destinatários pretendidos. Em muitos casos, os senhores da guerra locais (apoiados pela CIA) apropriaram-se dos fundos, que usaram para proveito próprio, efectivamente agravando a situação das populações.

E se não foi isto o que radicalizou o Boko Haram, não sei o que terá sido?

E se isto não radicalizou o Boko Haram, não sei o que terá sido.

As cruzadas do Bono (vocês sabem, aquele tipo que mudou o negócio para a Holanda para pagar menos impostos) pela erradicação da fome e preservação dos gambuzinos em vias de extinção, levaram-no a deitar-se na cama com anjinhos como o Tony Blair, o George W. Bush, o Sarkozy, a Condoleeza Rice… Tudo gente com provas dadas a aliviar o sofrimento de povos em dificuldades, como se sabe.

"Aqui vai alívio!"

É só uma forma menos convencional de distribuir comida. (Michael B. Keller)

Mas a camisola amarela da filantropia terá forçosamente que ir para o Bill Gates, o mais notório e generoso dos filantropos de Silicon Valley.

A Bill & Melinda Gates Foundation doou generosas somas para a vacinação de crianças, por exemplo na Nigéria… ao mesmo tempo que investiu em empresas petrolíferas responsáveis por uma autêntica epidemia de problemas respiratórios na região, assim como outros problemas associados à poluição gerada por elas. Mais tarde, soube-se que a fundação tinha uma substancial participação nas acções da infame Monsanto, com a qual tem promovido agressivamente reformas agrárias desastrosas para a economia local, mas bastante lucrativas para a mega-corporação.

Quase parece uma comédia slapstick, se substituirmos as tartes na cara pela subnutrição: o milionário trapalhão vai a África ajudar os nativos e acaba causando mais estragos. Hilariante.

Eu não nego que pouca ajuda é SEMPRE melhor do que ajuda nenhuma. Mas estou convencido que, muitas vezes, a caridade funciona como um paliativo que atrasa a reparação de injustiças sociais que estão na origem de muita da pobreza.

Numa sociedade social-democrática, pressupõe-se que toda a gente assina um contrato social em que se compromete pelo bem-estar de todos, em especial os mais desfavorecidos. Há aí obviamente um elemento de redistribuição de riqueza, que é a parte “socialista” em “social-democracia”. Como seria de esperar, isto desagrada a algumas pessoas. A alternativa, proposta por aqueles que gostariam de ver reduzida a intervenção do estado ao mínimo possível, é que essas redes sociais devem formar-se por iniciativa privada e voluntária. Por outras palavras, defendem que esse papel seja preenchido pela caridade, através de instituições de solidariedade, ONGs, fundações, igrejas… Claro, fale-se de impostos a estes filantropos, e é vê-los espumar-se pela boca.

Neste ponto, chamo a vossa atenção para este vídeo notável. Trata-se de um duma série de debates que opuseram, entre 84 e 86, duas figuras de proa do activismo político Americano nos anos 60: o Abbie Hoffman e o Jerry Rubin. Envolvidos numa série de acções anti-guerra e pró-igualdade de direitos, chegaram a ser acusados (e absolvidos) por conspiração (nos célebres “Chicago Seven trials”). Com o esmorecer do ímpeto revolucionário dos 60s, o Rubin trocou as t-shirts tingidas pelos fatos de corte fino e enriqueceu com uma série de investimentos bem sucedidos (foi um dos investidores iniciais da Apple), enquanto o Hoffman se retirou para um lugarejo nos EUA onde continuou politicamente activo a uma escala local.

É um documento incrível da época e (pertinente para este texto) bastante elucidativo da racionalização por detrás deste tipo de activismo milionário. Ironicamente, o tempo demonstrou que, dos dois, o idealista desligado da realidade era o Rubin. Consideremos as suas principais convicções: a) que a geração dos baby boomers, ao chegarem ao poder, iriam ser os paladinos da justiça social que apregoavam nos anos 60; e b) que os milionários dessa geração, particularmente os então emergentes neoliberais, iriam usar os seus recursos de forma mais moral que as gerações antecedentes. Não tenho grande razão para duvidar da sinceridade do Rubin, mas as suas previsões falharam de forma bastante espetacular o alvo.

O Bill Clinton foi o primeiro dessa geração a chegar à Casa Branca, e foi quem ordenou o bombardeamento do Iraque e Afeganistão. (Antes de ser impugnado por causa dum escândalo sexual. Pelo menos essa parte do espírito dos 60’s manteve viva.) E o que dizer da sua fé nos neoliberais? Falham-me as palavras. Talvez só recordar que foram eles quem nos ofereceu coisas como a bolha especulativa imobiliária e a crise financeira global.

É um bocado como acreditarmos que, por cada like que botamos num post, 1 cêntimo é doado aos meninos de África — nem tudo o que se lê no Facebook é verdade. E não, também não há nenhum príncipe Nigeriano a querer partilhar a sua fortuna consigo

Ou HÁ? Não, não há. (Mike Jacobsen)

Ou HÁ? Não, não há. (Mike Jacobsen)


Imagem de destaque da autoria de TechCrunch.