Não esganem a cotovia


Nenhuma classe se tem batido tão veememente pela liberdade de expressão como os humoristas. Natural, visto ser gente que ganha a vida, enfim, a dizer coisas. O argumento costuma andar à volta da ideia que uma piada é só uma piada é só uma piada é só uma piada. Não sei se estão a fazer-se de sonsos ou a ser mesmo sonsos e o que é pior. Os humoristas conhecem como poucos o poder da palavra, foi por isso mesmo que escolheram a vocação, provavelmente.

Queixam-se que a linguagem é excessivamente policiada, mas são exímios a escolher a palavra precisamente mais demolidora. Um insulto não é menos violento por ser dito com um sorriso maroto nos dentes. Não é por acaso que o que se aprende, nas salas de aulas, sobre o Júlio Dantas é que usava ceroulas e cheirava mal da boca.

As palavras são o substrato das ideias, a que o corpo social dá forma real. Mas então, há palavras que não devem ser ditas? Depende. Depende do contexto; depende do clima cultural do momento; depende de quem a diz; depende da intenção; depende de quem está a ouvir. É diferente, por exemplo, dizer-se algo num espaço privado ou num fórum público — entre amigos e amigas, eu falo em termos que, num contexto diferente, poderiam justamente ser descritos como ofensivos. Para quase todos os sectores da sociedade, aliás. Para mim, inclusive.

(Já agora, convençam-se disto duma vez por todas: as redes sociais não são espaços privados. No momento em que eu entre, via Facebook, na casa de alguém a dizer as minhas costumeiras javardices, tenho de fazer as pazes com a possibilidade dessa pessoa me mandar à bardamerda.)

Bem sei que a internet amplia certos fenómenos, entre os quais o ultraje. O facto de não existir mediação, aliado ao anonimato, implica que as vozes mais extremas tenham o mesmo tempo de antena das mais moderadas. Mas a discussão não é nova sequer, o grau de escrutínio é que sim. Dá-me ideia que o problema das redes sociais não é criar bolhas sociais, mas o contrário: pôr-nos em contacto próximo com as opiniões íntimas de pessoas que, não fosse a internet, não teriam uma ligação directa ao nosso córtex visual. Em pouco tempo, descobrimos que estamos rodeados de gente com opiniões divergentes sobre o Islão, os transexuais, os gordos, o Benfica… As pessoas não são mais facilmente ofendidas do que no passado — simplesmente, são mais facilmente assaltadas por aquilo que as ofende. É a proximidade forçada, não a bolha, que nos pica. São dores de intimidade, mas não penso que seja necessariamente uma coisa má.

Uma boa “rule of thumb” para averiguar se uma piada é racista/sexista/homofóbica é ver quem se ri mais alto dela. Se for alguém racista/sexista/homofóbico, talvez seja sinal de que a piada é racista/sexista/homofóbica. Assim como quem mais reclama o direito a poder dizer as palavras “proibidas”¹ é, por norma, o pessoal geralmente mais odioso.

Esquerdalho Bom/ Esquerdalho Mau

Practicamente já só há quatro temas que ainda suscitam paixões violentas no Ricardo Araújo Pereira: o ateísmo militante, o Benfica, os penáltis na língua Portuguesa e os ataques à liberdade de expressão. Pode ter recusado o excessos autoritaristas do comunismo, mas é com garbo que veste a farda de nazi da gramática. Esta postura já lhe valeu a distinção, com que o João Miguel Tavares o premiou no “Governo Sombra”, de ser o “único representante da esquerda liberal em Portugal”. Elogio que, como bom rapaz, o RAP não contrariou.

Aqui há tempos, alguém com quem é frequente discordar mas cuja opinião respeito dizia-me, para fundamentar uma opinião acerca do pretenso “ataque à liberdade de expressão” que (vou parafrasear) “até o Ricardo Araújo Pereira, normalmente insuspeito nestas matérias, concorda comigo”. O implícito no “normalmente insuspeito” é ele ser de esquerda, portanto sensível ao tratamento de minorias. E é possível que seja, só que dentro de limites que o próprio faz questão de delinear. Neste aspecto o RAP está perfeitamente alinhado com os seus colegas de profissão.

Mas o RAP é, acima de tudo, um tipo mesmo inteligente e com graça; e o sentido de humor tem o efeito perverso de ofuscar a tibieza das suas posições.

É que bater-se pelas identity politics não se faz forçosamente a custo das questões de classe. As duas não são mutuamente exclusivas e é perfeitamente possível batalhar-se pelas duas ao mesmo tempo — eu diria mesmo que uma não se faz sem a outra (as desigualdades económicas são exactamente correlacionados com desigualdades de género, raciais,…). Até a Zita Seabra (outra conhecida dissidente do comunismo), nesse programa, reconhece que a resistência contra o Estado Novo se fez também no plano dos costumes.

O mau serviço que o RAP presta é ser tomado por representante oficial da esquerda “respeitável” e a bitola pela qual ela se deve medir, contribuindo assim para a secundarização do debate identitário, fazendo efectivamente um favor às forças conservadoras que desejariam que estas questões não fossem discutidas de todo.

¹ Proibidas, entenda-se, pela decência e senso comum.


Imagem de destaque da autoria de Damon Wayans.