Os criativos fazem-no melhor


Uma das discussões em que um trabalhador das áreas ditas criativas mais se vê envolvido tem que ver com desfazer o mito de que o que faz tem menos a ver com um suposto dom e mais com esforço… É uma ideia de tal forma difundida, vejam lá, que muitas vezes são os próprios artistas a promovê-la.

Então. Não, aquilo que eu faço não envolve um especial talento (dom, inspiração, queda, whatever) inato, um sopro divino qualquer. É o resultado de anos a aperfeiçoar uma série de técnicas num ofício particular, que porventura uma proclividade natural me fez perseguir com mais afinco do que a outro. Nada de fundamentalmente diferente do que acontece noutra profissão qualquer, quer seja a engenharia mecânica, a carpintaria, o atletismo,…

Há nessa ideia uma implicação depreciativa (eu sei que não é intencional mas está lá), que é desligar o trabalho criativo do esforço, a realidade menos glamorosa da coisa. Esta noção está ligada também à ideia de que o trabalho criativo é sempre um enorme gozo para quem o faz. Às vezes até é (como o pode ser resolver uma equação matemática, construir um muro, etc.), mas não é menos fruto da instrução e do trabalho por isso.

Pode não parecer que estas duas coisas estão ligadas, mas eu acho que o mito do talento contribui para a desvalorização real das áreas criativas no mercado de trabalho. Poucas indústrias estão tão expostas à precariedade laboral como as criativas (falo das massas de profissinais, não do pequeníssimo número que compõe um certo star system das artes), e isso tem a ver em parte com a ideia, errada, de que a oportunidade de trabalhar nelas é uma recompensa por si própria. Talvez isso ajude a explicar a quantidade de vezes que tive que explicar a gente bem intencionada que não, “trabalhar na área” não dispensa a necessidade de ser remunerado e que a EDP não aceita “portefólio” como forma de saldar a factura da luz. Sempre me fez confusão que se queira aplicar ao mundo do trabalho a filosofia de que quem corre por gosto não cansa. Até um sprinter depende de que lhe paguem a corrida para alimentar os músculos.

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