Ser excêntrico já não é o que era


A probabilidade de acertar na chave vencedora do Euromilhões (5 números e 2 estrelas) é de 0,00000086%, mais ou menos 39 vezes menor do que a de ser atingido por um raio, embora substancialmente mais lucrativa. Desta vez, foi um casal de quinquagenários em Eiras, Coimbra a ser fulminado pelo relâmpago milionário: nada mais, nada menos que 163 553 milhões de euros. KA-POW! KA-CHING!

O lema do Euromilhões, já toda a gente deve saber por esta altura, é “a criar excêntricos de um dia para o outro”, a implicação sendo que um maluco rico é excêntrico, ao passo que um pobre é um doente mental como os outros.

O meu problema com o Euromilhões é a mensagem subliminar que transmite, que é mais ou menos esta: “sim, a situação está preta, mas se não levantar ondas e continuar a acreditar, pode ser que um dia seja eu o sortudo”. Ao apresentar-se como uma — altamente improvável — forma de escapar ao fatalismo da classe social, o Euromilhões está a exercer efectivamente um subtil papel de controlo social.

Uma história semelhante acontece no futebol e outros desportos de alta competição. Algumas das figuras maiores do futebol nacional foram putos pobres a quem foi oferecida a derradeira oportunidade de escapar à condição social em que nasceram. É o clássico conto da Cinderela, só que com ainda mais brincos de diamante. Naturalmente, por cada Cristiano que aparece há uma legião de miúdos que nunca passarão das academias infantis, mas não é desses que reza a história. Não é um esforço demasiado grande da imaginação ver um paralelo entre estes e os gladiadores da Roma Antiga, que arriscavam uma carreira implacável e potencialmente curta por uma magra possibilidade de ganharem a liberdade.

É que o Euromilhões e outros jogos de azar semelhantes, representam um caso-limite de um dos principais mitos do capitalismo — o da mobilidade social ascendente.

Uso a palavra “mito” porque, infelizmente, esta mobilidade é em boa parte ilusória, facto que está em contradição com a tese de que O Empreendedorismo Nos Salvará. Uso a palavra “facto” porque estou a citar vários estudos independentes, que revelam que “não se verificou uma alteração relativa significativa entre as posições ocupadas na sociedade por cada indivíduo e os seus descendentes”. E que “são poucos os casos em que as oportunidades fundadas no mérito são uma realidade, uma vez que esse critério é muitas vezes pervertido por outros critérios, como as afinidades pessoais e familiares”.

Não é por acaso que o John Oliver decidiu ilustrar o fosso de rendimentos nos EUA com uma tômbola da lotaria, num segmento que tem quase tanto de cómico como de trágico. O Euromilhões é só a versão literal desse “anda à roda” social.

Mas se a aceitação do status quo está tão fortemente ancorada nesta ideia, o que aconteceria se deixássemos de acreditar nela? Descansem, é uma pergunta retórica: a mobilidade social ascendente é ainda uma miragem demasiado aliciante para que isso aconteça.


Foto de destaque da autoria de Crispin Semmens.